O papel do sindicato revolucionário no dia a dia da luta de classes

O grupo de tradução partilhado do CEL_Lisboa e da AIT-SP Lisboa começou a traduzir em Janeiro o livro “Fighting for Ourselves” da Solidarity Federation (Secção do Reino Unido da IWA-AIT). Optámos por iniciar esta aventura pelo capítulo final, em que se analisa o campo de ação do anarco-sindicalismo no século XXI. Iremos publicar semanalmente cada parte deste capítulo, seguindo depois com os restantes capítulos.


O papel do sindicato revolucionário no dia a dia da luta de classes

O que estamos a descrever é por vezes referido como sindicalismo minoritário, mas isto é de certa forma enganador por dois motivos. Primeiramente, como demonstrado já anteriormente, muitos dos grandes sindicatos reformistas são na prática, em termos de presença nos locais de trabalho, organizações de minorias. Não é raro nem sequer haver ativistas sindicais num determinado local de trabalho “sindicalizado”. Mesmo quando há, o mais comum é um ou dois a trabalharem para todo um departamento ou empregador. É raro num sindicato reformista encontrarmos uma larga densidade de militantes num só local de trabalho. Portanto todos os sindicatos, em termos de atividade quotidiana, são como Emile Pouget disse, “uma minoria ativa.” Em segundo lugar, não somos uma minoria propositadamente, mas sim devido à atual situação. Nós, é claro, procuramos a mais ampla adoção possível dos princípios e métodos anarco-sindicalistas por toda a classe trabalhadora. Apenas não vemos razão para esperar até esse momento para nos organizarmos. Precisamos de usar a nossa capacidade de organização nas lutas do aqui e agora.

Quando falamos de organizar ação direta, o que vem mais rapidamente à cabeça é a greve. Porém, na verdade, uma greve requer uma organização significativa, e portanto podemos também focar a nossa visão noutras formas de ação. Geralmente falando, quanto menor o número de participantes, menor é a pressão económica direta que podemos aguentar, e assim maior é inclinação para a pressão moral. Isto pode ser compreendido como desprezar o patrão, tal como os membros de uma equipa recusarem toda a comunicação não-essencial, talvez uma paragem total da comunicação verbal, até que as suas preocupações sejam atendidas. Este tipo de ação pode certamente ser organizado por indivíduos, e qualquer organização de propaganda capaz de ter um jornal certamente também saberá orientar-se numa atividade tão prática como, aliás ao invés de, atividades de propaganda. Fazê-lo e espalhar que o fizemos tem sido, na nossa experiência, uma forma de atrair mais militantes de uma persuasão semelhante.

Inversamente, quanto maior o número de participantes, maior é a pressão económica que conseguimos suportar e menor é a necessidade de confiar na pressão moral. No final deste espectro está a greve geral insurreccionária. Iremos falar mais dela na secção seguinte, que discute o papel do sindicato revolucionário no processo revolucionário. Sem necessitar de dizer, tal ação requer uma habilidade para mobilizar milhões de trabalhadores, e portanto um sério nível de organização bastante mais profundo do que o que existe hoje em dia. Não estamos a dizer que podemos chegar até essa organização por mera força de vontade. Tal sindicato revolucionário pode ser formado de várias formas, e provavelmente com a combinação de muitas delas: simples crescimento da militância filiada, secções radicalizadas que se separaram de outros sindicatos, recrutamento de ondas de lutas mais abrangentes, fusões de já existentes e novas organizações de linha anarco-sindicalista… O que estamos a dizer é que ao lidar com conflitos de classe sob a linha anarco-sindicalista no aqui e agora das formas que conseguirmos, através da escola da luta, desenvolveremos tanto uma organização como uma cultura mais ampla de solidariedade e ação direta dentro da classe trabalhadora, maior do que as atualmente verificáveis. O caminho exato entre o aqui e o processo revolucionário continua por ser pisado. O importante é continuar a caminhá-lo. Que papel pode ter o sindicato revolucionário neste processo?

O objetivo do sindicato anarco-sindicalista é agir como uma força organizada dentro do dia a dia das vidas da classe trabalhadora. Procuramos organizar resistência em cada local de trabalho e comunidade, e ligá-la constantemente à necessidade de derrubar o duplo jugo do capital e do estado. Procuramos o derrubar do capitalismo, e a substituição deste pela sociedade comunista libertária autogerida. Apesar de a organização física da resistência ser central às nossas ideias, não rejeitamos a teoria revolucionária. Porém para os anarco-sindicalistas, a teoria é gerada pela prática e assim sendo, deve ser vista como uma ajuda à organização da luta dos trabalhadores e não, como é mais frequente, uma forma de dominá-la e controlá-la. E como o capitalismo é dinâmico com as suas condições em mudança constante, também devem ser assim os métodos usados pelos trabalhadores para combatê-lo. Envolvidos nesta luta quotidiana estamos melhor colocados para assegurar que a nossa teoria acompanha o passo.

Enquanto anarco-sindicalistas, opomo-nos a todas as formas de partidos políticos. Rejeitamos a noção de que os governos agem nos interesses da classe trabalhadora. Eles podem até trazer melhorias menores de modo a conseguirem ganhos eleitorais, mas a mudança fundamental poderá surgir apenas da força do trabalho organizado. Também rejeitamos os chamados partidos “revolucionários”, partindo do princípio de que, tal como todos os outros partidos políticos, querem ser o poder estatal. O nosso objetivo é uma sociedade comunista libertária, autogerida, democraticamente controlada, e não uma em que os partidos capitalistas são simplesmente substituídos por uma ditadura Marxista. Defendemos que os trabalhadores devem tomar o controlo das suas próprias lutas, em oposição a deixarem-se fiar em políticos. Defendemos, e procuramos organizá-la, a ação direta tanto como meio em que os trabalhadores podem controlar democraticamente as suas lutas, e como arma mais efetiva de luta contra o capitalismo. Em oposição a votar uma vez de 4 em 4 anos em políticos inúteis, defendemos que as pessoas devem organizar-se e confrontar o capitalismo e o estado de cabeça erguida.

Para os anarco-sindicalistas, a ação direta é muito mais que uma tática a ser empregue contra o capitalismo. Através do uso da ação direta, desafiamo-nos a construir uma cultura de solidariedade e ajuda mútua em direta oposição à cultura dominante capitalista, baseada num interesse próprio que limita o potencial humano, e ganância.  Pela ação direta, a classe trabalhadora pode desenvolver habilidades, confiança, e compreensão da natureza da sociedade necessária para administrar uma futura sociedade libertária. A ação direta não só satisfaz as nossas exigências imediatas, como também nos liberta da ridícula dependência de líderes políticos e no estado. Pela ação direta, a classe trabalhadora pode forjar os laços da solidariedade que irão formar o ethos que sustentará a futura sociedade comunista libertária. Pela ação direta, os trabalhadores podem começar a construir as fundações da futura sociedade comunista libertária agora.

O objetivo do anarco-sindicalismo é construir uma organização de trabalhadores militantes, todavia de uma clara perspectiva revolucionária. Este reconhece que as condições de uma sociedade podem variar, e consequentemente também a possibilidade de organizar a luta de classes. No entanto, quaisquer que sejam as condições, os anarco-sindicalistas defendem que uma organização de trabalhadores militantes não pode ser conquistada por um grupo político que se organiza fora do local de trabalho. A organização no local de trabalho tem de ser construída por um sindicato revolucionário que se envolva a si mesmo no dia a dia da luta dos trabalhadores. Porém o objetivo do anarco-sindicalismo não é conseguir afiliar todo o trabalhador no sindicato revolucionário, mas sim organizar encontros de massas em que o sindicato defenda a ação militante. ‘Massas’ não quer dizer necessariamente ‘massivo’. Se uma equipa é composta por 5 pessoas, então uma reunião com 4 é uma reunião de massas. Obviamente, do lado oposto, estas podem incluir centenas de trabalhadores. Contudo reuniões tão grandes podem diminuir as oportunidades de participação, e assim dividi-las em pequenas assembleias, coordenadas através de um conselho de delegados pode ser apropriado. As formas precisas empregues pelo sindicato revolucionário são ditadas pelas necessidades das lutas e não pela teoria. E o sindicato revolucionário não se limita a si mesmo ao local de trabalho. A luta de classes também se dá na luta contra os senhorios, promotores imobiliários, o regime de benefícios, agências de arrendamento, agências temporárias, autoridades fiscais, o regime prisional, e outros representantes do estado e do capital.

No entanto, o sindicato anarco-sindicalista também não deve ser visto como uma organização monolítica que procura organizar todo o santo aspecto da atividade humana. O nosso objetivo é criar uma cultura revolucionária dentro da classe trabalhadora que irá formar a base da futura sociedade comunista libertária. E esta cultura revolucionária será tão rica e diversa como a própria humanidade. Irá compreender um número incontável de grupos e interesses, formais ou informais, que irá atuar tanto dentro como fora do sindicato. O papel do sindicato é aproximar esta diversidade  com base na classe em oposição ao capitalismo e ao estado. No coração do sindicato anarco-sindicalista está o núcleo local, que procura ser um centro comunitário e de luta no local de trabalho da área circunjacente. Mas o papel do núcleo local ultrapassa isso. Providencia um espaço onde uma diversa variedade de grupos, tais como de oprimidos, culturais, e grupos educacionais, se podem organizar. O núcleo local age como centro social, político e económico da luta da classe trabalhadora de uma dada área. É a encarnação física das nossas crenças e métodos, o meio por onde os trabalhadores se tornam anarco-sindicalistas não só à base de ideias mas pela atividade.

O núcleo local procura ser uma colmeia da auto-atividade da classe trabalhadora na área, fora e dentro do sindicato, um catalisador da auto-atividade dos trabalhadores, uma infraestrutura e ferramenta de luta para a classe trabalhadora. É uma base não só para organizar contra o estado e contra o capital, mas também para a organização de todo o tipo de grupos marginalizados e oprimidos. Se somos sérios sobre prefigurar uma sociedade comunista libertária, temos de desafiar o patriarcado, o racismo, e a intolerância em todas as suas expressões dentro da sociedade e, quando necessário, também dentro das nossas fileiras. Se não tivermos as nossas próprias instalações, podemos realizar sessões nos espaços que tivermos ao nosso dispor, utilizar os piquetes, ou ter uma banca regular, para discutir organização com os trabalhadores. E neste envolvimento, iremos muito provavelmente encontrar lutas para pegar contra o estado e o capital. Durante os primeiros dias, estas lutas provavelmente serão pequenas, tentativas de colectivizar conflitos individuais. Só podemos morder o que podemos mastigar. Porém, lidando com instâncias de roubo salarial, depósitos roubados, e os pequenos ataques de todos os dias, podemos tanto ganhar demandas concretas mas também começar a construir uma cultura de ação direta, e normalizar a ideia de nos levantarmos pelos nossos interesses, de lutarmos por nós mesmos.

A precarização é por vezes tida como um novo fenómeno que mina a possibilidade do trabalho organizado. Porém isto é apenas parcialmente verdade. Contratos de curta duração e trabalhos temporários fazem com que a construção de uma organização permanente no trabalho seja muito provavelmente ou difícil ou impossível. No entanto, tal situação apenas exige diferentes táticas e formas de luta, onde o núcleo local pode jogar um papel central. O núcleo local é o lugar onde os trabalhadores ocasionais podem reunir, discutir e desenvolver táticas adequadas às suas condições. Lembremo-nos dos trabalhadores precários que formaram a espinha dorsal militante da CGT francesa, e recordemos os organizadores itinerantes da IWW que carregavam ramos nos seus sacos. O capital irá sempre tentar destruir os nossos campos de influência, o que, novamente, apenas exige o desenvolvimento de novas táticas. Se tivermos sorte, podemos transformar as nossas fraquezas em pontos fortes. Os trabalhadores que mudam de emprego demasiado frequentemente para construir organizações coletivas duradouras no trabalho, muitas das vezes permanecem no mesmo setor. Portanto, por exemplo, trabalhadores de restauração que pertencem a um núcleo local podem partilhar ideias e conhecimento sobre os seus patrões, e mobilizar o núcleo para organizar piquetes e arrancar demandas. O lado bom da precarização é que, se de qualquer das formas não vais estar no trabalho durante muito tempo, a ameaça de perderes o emprego por te levantares por ti mesmo é muito reduzida. Para aqueles que estão em posições de maior permanência, construir uma organização sólida no local de trabalho que possa resistir à vitimação será provavelmente uma melhor abordagem.

A típica posição vanguardista é que a consciência precede a ação. Isto é, afinal de contas, o porquê do partido de vanguarda, portador das “consciências revolucionárias”, ter de dirigir a classe trabalhadora. Esta atitude é explicitamente Marxista-Leninista porém implícita em muitas outras organizações políticas, mesmo quando estas querem apenas ser uma “direção de ideias”. Para os anarco-sindicalistas, é ao contrário. Os trabalhadores podem não partilhar connosco os nossos objetivos de derrubar o capitalismo e o estado, mas não lhes estamos a pedir para se comprometerem a tal coisa como pré-requisito para a organização. Estamos simplesmente a pedir-lhes para se juntarem à ação direta connosco pelos seus próprios interesses. Se, neste processo, o anarco-sindicalismo começar a fazer mais sentido, então o sindicato ganhará mais um membro. Deve ser explicado que este não é o sindicato do costume, preocupado apenas com teres o dinheiro que precisas para viver, mas um sindicato revolucionário que também se bate por uma transformação social radical. Isto não é uma questão de nos identificarmos como anarco-sindicalistas, mas de nos identificarmos com os nossos métodos e objetivos, qualquer que seja o teu rótulo político preferido (ou falta dele).  Não nos faz bem algum andarmos a recrutar trabalhadores que não partilham os nossos métodos e objetivos, nem bom é para os trabalhadores juntarem-se a um sindicato cujos métodos e objetivos eles não partilham. Mas também não temos de recear recrutar ativamente através da atividade, e esta é a única forma de expandir para lá do campo de militantes politizados existente. A atividade sindical revolucionária pode expandir este campo.

As organizações do local de trabalho podem ser militantes porém isso não as faz automaticamente revolucionárias. Não podemos simplesmente limitar-nos a organizar reuniões laborais e esperar que, assim como por magia, ganhem uma perspectiva revolucionária. Muita luta militante exigiu o reconhecimento sindical, conquistou-o, e depois estabeleceu-se na rotina normal das relações industriais mediadas. Temos de organizar a militância como um trampolim para o pensamento revolucionário. O sindicato revolucionário pode ter um papel catalisador em criar uma cultura de solidariedade e ação direta entre a classe trabalhadora, recrutando aqueles que partilham os nossos interesses e objetivos para as nossas fileiras. Assim como levantarmos questões e, quando possível, organizar ações, devemos espalhar regularmente propaganda, tentar organizar reuniões de local de trabalho, e ir tentando puxar mais pessoas para a SF. A longo prazo, o objetivo será ter um acréscimo na organização a ponto que as reuniões de local de trabalho se transformem lentamente, deixando de ser simplesmente militantes, ou primariamente económicas, para se tornarem reuniões de trabalhadores revolucionários. Na prática, a reunião de local de trabalho tornar-se-ia a fundação do ramo do sindicato revolucionário em um dado local de trabalho. Um processo semelhante pode tomar lugar na área local através do núcleo local, que é especialmente importante para os trabalhadores precários, desempregados, domésticos ou reformados.

Às vezes ouvimos o argumento de que, ao negociarmos dentro do capitalismo, arriscamos tornar-nos parte dele. Porém face à realidade tal não se comprova.  Isto é igualar negociação a colaboração de classes. Como toda a demanda que não seja a revolução é uma negociação, esta abordagem faria com que todas as organizações que não exigem a revolução em todas as situações fossem marcadas como reformistas. Nada poderia ser mais absurdo e purista. As negociações são simples reuniões entre os trabalhadores e o inimigo, seja a gerência, o senhorio, ou outro qualquer. O fator que determina a natureza das negociações é quem é que está a negociar. As negociações devem ser feitas ou em massa, ou por delegados mandatados pelos trabalhadores que estão em luta. O sindicato revolucionário não negoceia pelos trabalhadores, os trabalhadores negoceiam por eles mesmos, mas não hesitamos em ser delegados. Não procuramos que as negociações busquem o “apenas necessário” ou “justo”, ao invés disso exigimos e agarramos tudo o que nos for possível em dada circunstância. A prática revolucionária consiste na relação entre os fins e os meios. É o uso da ação direta para ganhar exigências imediatas de tal maneira que constrói a confiança, a solidariedade e a cultura necessária para as lutas seguintes, e finalmente, para a própria revolução. A revolução é feita de actos e não de palavras, nas nossas batalhas diárias e também na futura insurreição.

Há que entender que a ação direta é guerra económica à distância. Assim, é sempre mais difícil entender o efeito que uma disputa tem do outro lado. O único momento em que os dois lados se juntam é durante as negociações. Um dos objetivos primários das negociações, portanto, é que um lado tente avaliar o efeito que a ação tem no outro, enquanto simultaneamente tentamos esconder as nossas próprias fraquezas. Se se tornar claro que o efeito da ação está a ter um maior impacto do que o previsto, então obviamente as exigências devem aumentar. O anarco-sindicalista entra nas negociações como um delegado mandatado. Porém apenas um idiota não exigiria mais se se tornasse aparente que a gerência já estava a tremer. As negociações também têm um papel mais avançado, podendo ser usadas como parte do processo para desmoralizar a gerência. O sindicato anarco-sindicalista toma partido na luta de classes, e tal como em qualquer outra guerra, a moral ou alternativamente a desmoralização desempenha um papel importante na batalha. O sindicato anarco-sindicalista procura instigar na gerência um sentimento de medo, ódio e perplexidade. Queremos que eles cheguem ao ponto em que já estão a arrancar os próprios cabelos  perante as nossas demandas “irracionais”, desesperados para que o seu pesadelo acabe. Notamos aqui que uma vez um dos nossos membros esteve envolvido numa ação em que se forçou o gerente a ir comprar gelados a toda a gente num dia bastante caloroso. Quando o gerente começou a ceder e ofereceu-se para pagar os gelados, eles insistiram que queriam que fosse ele a ir comprar os gelados em pessoa. Este é o tipo de poder “irracional” e desmoralizador que procuramos ter sobre a gerência. E sem precisar de dizer, gelado não é igual a reformismo.

A abordagem anarco-sindicalista pega nas lutas que podemos ganhar, e usa as vitórias para atrair mais trabalhadores para a nossa órbita, demonstrando simultaneamente a validade do nosso método anticapitalista e anti-estatal. É verdade que a maioria dos trabalhadores não partilha a nossa perspectiva neste momento. Porém este facto não é incondicional, depende de numerosas variáveis, umas que podemos controlar e outras que não. Na prática, descobrimos que pelo menos alguns dos nossos colegas trabalhadores estão abertos às ideias e métodos revolucionários, enquanto que o reformismo é muito mais empurrado por políticos convencidos de que a “ideologia” afasta “os trabalhadores” (lembrem-se dos Treintistas). E devemos acrescentar que, a distância entre a desilusão com o teu emprego e a política partidária, atitudes generalizadas, e a perspectiva revolucionária não é assim tão grande como muitos especialistas em “teoria revolucionária” gostam de insistir. Muitos de nós atravessámos essa longitude, e nós não somos especiais. Ser contra o capitalismo e o estado no abstracto não faz grande sentido. No entanto, quando expresso através da ação direta, afirmando a nossa independência contra aqueles que estamos a combater, é quase senso comum. Pelo processo da luta, estamos confiantes que a nossa perspectiva irá tornar-se cada vez mais e mais auto-evidente, e até como evolui através destas experiências.

Por exemplo, é difícil conduzir qualquer coisa que se assemelhe à ação direta nas ruas hoje em dia sem entrar em conflito com a polícia. Marchar sem permissão prévia, ou deixar a rota de uma marcha (ou por vezes sem qualquer outra razão aparente de todo), é provável que atraia a repressão policial. A repressão policial vindica a nossa perspectiva anti-estatal. Muitos dos nossos membros mais recentes foram politizados pelo bastão nas recentes lutas contra as propinas e a austeridade. Só que a polícia está numa encruzilhada. Se não nos responderem com repressão, então nós teremos o caminho livre para organizar ação direta, como fazer piquetes em agências de trabalho temporário e organizar bloqueios económicos e de comunicação. Quando estas táticas conseguem as vitórias, elas vindicam o nosso ethos anticapitalista e de ação direta. Se a nossa compreensão da natureza da sociedade for amplamente correta, então as lutas deverão expor as rupturas que põem a classe trabalhadora de um lado e o estado e o capital do outro. Ao travar a luta de classes no quotidiano, as ideias anarco-sindicalistas podem tornar-se um senso comum da classe trabalhadora. Dinheiro roubado? Piquete, ocupar e barricar esses sacanas. Problemas no trabalho? Junta alguns colegas no trabalho e organizem-se.

Os membros da SF numa mesma indústria também formam redes industriais. No presente, estas são pequenas e funcionam principalmente como mailing lists para discussão e produção de propaganda. Ao contrário dos núcleos locais, as redes são geograficamente dispersas não tendo o carácter imediato da organização em pessoa, e portanto estão limitadas quanto ao que conseguem fazer, pelo menos por agora, com a maior parte da atividade prática sendo organizada pelos núcleos locais. No entanto, à medida que crescemos, há o potencial de criar núcleos locais industriais, tal como núcleos de local de trabalho da SF, que interligados através das redes industriais, irão formar embriões de sindicatos revolucionários industriais. Obviamente, quando referimos “industriais” não estamos a falar de chaminés, mas no sentido de “um local de trabalho, um sindicato”. Assim, por exemplo, num campus universitário, porteiros, auxiliares, assistentes de ensino e staff académico (assumindo que não seriam manda-chuvas de algum tipo) formariam um núcleo de local de trabalho, que por sua vez fariam parte da Rede de Trabalhadores/as da Educação. Nós ainda estamos na fase inicial. Para as nossas secções-irmãs em Espanha e na Itália, os núcleos de local de trabalho e os sindicatos industriais estão muito mais avançados. As condições britânicas, particularmente tendo em conta a legislação sindical, são um pouco diferentes. Porém isso só afeta os detalhes, não a grande imagem do que estamos a tentar fazer.

Como neste momento somos uma minúscula minoria da classe trabalhadora, teremos que organizar para além das nossas afiliações. Mesmo que fossemos 10.000 vezes maiores, continuaríamos na mesma situação; tal como vimos, até no caso de Catalunha em 1936. Variadas formas de organização podem servir este propósito: desde comités de local de trabalho, reuniões de massas, assembleias de bairro, e comités de greve, através de comités de fábrica, conselhos de delegados, ou uma federação preenchida de conselhos de trabalhadores. Nenhuma destas formas é uma panaceia e todas têm as suas vantagens e desvantagens. Contrariamente, são meios democráticos de organizar que podem ser empregues no sindicato revolucionário à medida que o decorrer da luta exigir. As formas particulares de organização que usamos reflectem o conteúdo das lutas que travamos. Em Puerto Real, as reuniões de massas de local de trabalho e da comunidade foram uma parte vital da luta. Mas também tivemos de atender “reuniões de massas” organizadas por sindicatos reformistas, onde uma sequência de faladores profissionais vão vomitando banalidades para uma audiência aborrecida, ou que simplesmente servem para carimbar decisões que já tinham sido feitas noutro lado qualquer. No caso do coletivo Workmates no metro de Londres, o conselho de delegados que montaram foi posto de parte pela ação vinda diretamente das reuniões de massas. Porém, se semelhantes reuniões de massas estivessem a acontecer por múltiplos locais de trabalho, algo como um conselho de delegados ter-se-ia provado indispensável para juntar todas as lutas. O conteúdo da luta tem de esculpir as formas que usamos. O papel do sindicato revolucionário é tomar a iniciativa de organizar as lutas em primeiro lugar.

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