A Tirania das Organizações Sem Estrutura – Parte II

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Impotência política

Grupos inestruturados podem ser muito eficazes para fazer as mulheres falarem sobre suas vidas, mas eles não são muito bons para fazer as coisas acontecerem. A não ser que o modo de operação mude, os grupos tropeçam quando chega o momento em que as pessoas se cansam de “apenas conversar” e querem fazer algo mais. Uma vez que o movimento como um todo, na maioria das cidades, é tão inestruturado quanto os grupos de discussão individuais, ele não é muito mais eficaz em tarefas específicas do que os grupos separados. A estrutura informal está raramente suficientemente junta ou suficientemente em contato com as pessoas para ser capaz de operar eficazmente. Assim, o movimento gera muita emoção e poucos resultados. Infelizmente, as consequências de toda essa emoção não são tão inócuas quanto os resultados e a vítima é o próprio movimento.

Alguns grupos que não envolvem muitas pessoas e trabalham em pequena escala, tornaram-se projetos de ação local. Mas essa forma restringe a atividade do movimento ao nível local. Além disso, para funcionarem bem, os grupos precisam normalmente se reduzir àqueles grupos informais de amigos que tocavam as coisas. Isto impede muitas mulheres de participarem. Enquanto a única forma de participação no movimento for a filiação a um pequeno grupo, aquelas mulheres que não aderem estão em evidente desvantagem. Enquanto os grupos de amizade forem o principal meio de atividade organizacional, o elitismo se torna institucionalizado.

Para aqueles grupos que não conseguem encontrar um projeto local ao qual se dedicar, o mero ato de estar junto torna-se a razão de estar junto. Quando um grupo não tem uma tarefa específica (e a conscientização é uma tarefa), as pessoas voltam suas energias para o controle de outras pessoas do grupo. Isto não é feito tanto por um desejo maligno de manipular os outros (embora às vezes o seja) quanto pela falta de alguma coisa melhor para fazer com seus talentos. Pessoas hábeis com tempo disponível e uma necessidade de justificar seus encontros se empenham no controle pessoal e gastam seu tempo criticando as personalidades dos outros membros do grupo. Disputas internas e jogos de poder pessoais tomam conta do dia. Quando um grupo está envolvido numa tarefa, as pessoas aprendem a conviver com os outros como são e a desprezar antipatias em benefício de objetivos maiores. Há limites colocados à compulsão de moldar cada pessoa à concepção que se tem do que deve ser.

O fim da conscientização deixa as pessoas sem direção e a falta de estrutura as deixa sem meios de chegar lá. As mulheres do movimento ou se voltam para si mesmas e suas companheiras ou buscam outras alternativas de ação. E há poucas alternativas disponíveis. Algumas mulheres simplesmente “fazem suas próprias coisas”. Isso pode levar a um grande grau de criatividade individual que pode, em grande parte, ser útil ao movimento, mas não é uma alternativa viável para a maioria das mulheres e certamente não promove um espírito de esforço cooperativo de grupo. Outras mulheres abandonam inteiramente o movimento porque não querem desenvolver um projeto pessoal e não encontraram meios de descobrir, associar-se ou começar projetos de grupo que as interessem.

Muitas se voltam para outras organizações políticas para dar-lhes o tipo de atividade estruturada e eficaz que elas não conseguiram encontrar no movimento das mulheres. Dessa forma, essas organizações políticas que vêm a liberação das mulheres como apenas uma questão entre outras, consideram o movimento de liberação um vasto manancial para o recrutamento de novos membros. Essas organizações não precisam se “infiltrar” (embora isso não exclua que o façam). O desejo de uma atividade política significativa gerado pelas mulheres ao se tornarem parte do movimento de liberação é suficiente para torná-las ansiosas de entrarem em outras organizações. O próprio movimento não permite nenhum tipo de vazão para suas novas ideias e energias.

Aquelas mulheres que entram em outras organizações políticas e permanecem no movimento de liberação das mulheres ou que entram no movimento de liberação e permanecem em outras organizações políticas, tornam-se, por sua vez, pontos de apoio para novas estruturas informais. Essas redes de amizade se baseiam mais nas suas políticas comuns não-feministas que nas características discutidas anteriormente; no entanto, a rede opera praticamente da mesma forma. Já que essas mulheres partilham valores, ideias e orientações políticas comuns, elas também se tornam elites irresponsáveis, não escolhidas, não planejadas e informais — pretendam sê-las ou não.

Essas novas elites informais são freqüentemente sentidas como ameaças pelas velhas elites informais estruturadas anteriormente a partir de outros movimentos. Trata-se de um sentimento justificado. Essas redes politicamente orientadas dificilmente estão dispostas a ser meras “irmandades” como eram muitas das antigas e querem fazer proselitismo de suas ideias políticas e feministas. Isso é natural, mas as implicações disso para o movimento de liberação das mulheres nunca foram adequadamente discutidas. As velhas elites dificilmente estão dispostas a discutir abertamente essas diferenças de opinião porque isso implicaria em expor a natureza da estrutura informal do grupo. Muitas dessas elites informais tem se escondido sob a bandeira do “anti-elitismo” e da “ausência de estrutura”. Para combater efetivamente a competição de outra estrutura informal, elas teriam que tornar-se “públicas” e essa possibilidade é temida por suas inúmeras implicações perigosas. Assim, para manter seu próprio poder, torna-se mais fácil racionalizar a exclusão dos membros da outra estrutura informal por meios como o “combate aos vermelhos”, o “combate às lésbicas” ou o “combate às heteros”. A única outra alternativa é estruturar o grupo formalmente de tal maneira que o poder original seja institucionalizado. Isso nem sempre é possível. Se as elites informais forem bem estruturadas e tiverem exercido uma boa quantidade de poder no passado, tal tarefa é viável. Esses grupos têm uma história de atividade política relativamentente eficaz na qual a firmeza da estrutura informal se mostrou um substituto adequado à estrutura formal. A sua estruturação não altera muito sua operação, embora a institucionalização da estrutura de poder abra espaço para a contestação formal. Normalmente, são os grupos que mais necessitam de estrutura, os menos capazes de criá-la. Suas estruturas informais não foram bem formadas e a adesão à ideologia da “ausência de estrutura” as faz relutantes em mudar de estratégia. Quanto mais inestruturado um grupo é, tanto mais carece de estruturas formais; quanto mais adere a uma ideologia de “ausência de estrutura”, mais vulnerável está a ser tomado por um grupo de companheiras oriundas de organizações políticas.

Uma vez que o movimento como um todo é tão inestruturado quanto a maioria dos grupos que o constitui, ele é igualmente susceptível à influência indireta de outras organizações. Mas o fenómeno manifesta-se diferentemente. Num nível local, a maior parte dos grupos consegue operar autonomamente mas apenas os grupos que conseguem organizar uma atividade no nível nacional podem ser considerados grupos nacionalmente organizados. Assim, são as organizações feministas estruturadas que em geral fornecem as direções nacionais para as atividades feministas e essas direções são determinadas pelas prioridades dessas organizações. Grupos como a “Organização Nacional das Mulheres” e a “Liga de Ação pela Igualdade das Mulheres” e algumas convenções feministas de esquerda são as únicas organizações capazes de montar uma campanha nacional. Os inúmeros grupos inestruturados de liberação das mulheres podem escolher se vão apoiar ou não as campanhas nacionais, mas são incapazes de organizar uma campanha elas próprias. Dessa forma, seus membros se tornam as tropas sob a liderança das organizações estruturadas. Eles não têm sequer os meios de decidir quais devem ser as prioridades.

Quanto mais inestruturado um movimento é, menos controle ele tem sobre as direções na qual se desenvolve e sobre as ações políticas na qual se engaja. Isso não significa que suas ideias não vão se espalhar. Dado um certo grau de interesse dos meios de comunicação e condições sociais favoráveis, as ideias poderão ser difundidas amplamente. Mas o fato das ideias serem difundidas não implica que serão implementadas; significa apenas que serão discutidas. Na medida em que podem ser aplicadas individualmente, elas podem ser realizadas, mas na medida em que requerem poder político coordenado para ser implementadas, elas não o serão.

Enquanto o movimento de liberação das mulheres permanece dedicado a uma forma de organização que enfatiza os pequenos e inativos grupos de discussão entre amigas, os piores problemas da inestruturação não se farão sentir. Mas esse estilo de organização tem seus limites; é politicamente ineficiente, excludente e discriminatório quanto às mulheres que não estão ou não podem estar ligadas a redes de amigas. Aquelas que não se enquadram no esquema existente por motivo de classe, raça, profissão, casamento, maternidade ou personalidade serão inevitavelmente desencorajadas de tentar participar. Aquelas que se encaixam desenvolverão interesses dissimulados de manter as coisas como estão.

Os interesses dissimulados dos grupos informais serão mantidos pelas estruturas informais que existem e o movimento não terá meios de determinar quem deve exercer o poder nele. Se o movimento continua, deliberadamente, a não escolher quem deve exercer o poder, ele termina por não abolir o poder. Tudo que faz é abdicar o direito de exigir daquele que exerce o poder e a influência que tenha responsabilidade por esse poder e essa influência. Se o movimento continua a manter o poder tão difuso quanto possível porque sabe que não pode exigir responsabilidade daquele que o tem, ele impede qualquer grupo ou pessoa de dominá-lo totalmente. Mas, simultaneamente, ele se condena a ser tão ineficaz quanto possível. Um meio-termo entre a dominação e a ineficácia pode e deve ser encontrado.

Esses problemas estão surgindo agora porque a natureza do movimento está mudando necessariamente. A conscientização, como função principal do movimento de liberação das mulheres, está se tornando obsoleta. Devido à intensa publicidade da imprensa nos últimos dois anos e aos inúmeros livros e artigos que circulam agora nos meios estabelecidos, a liberação das mulheres se tornou uma expressão assimilada. Seus temas são debatidos e os grupos de discussão informais são formados por pessoas que não têm conexão explícita com nenhum movimento. O trabalho puramente educacional não é mais uma necessidade imperativa. O movimento deve continuar com outras tarefas. Ele precisa agora estabelecer suas prioridades, determinar suas finalidades e perseguir seus objetivos de maneira coordenada. Para fazê-lo ele deve organizar-se localmente, regionalmente e nacionalmente.

Princípios da estruturação democrática

A partir do momento em que o movimento não se prende mais tenazmente à ideologia da “ausência de estrutura” ele estará livre para desenvolver aquelas formas de organização que melhor se adequam ao seu funcionamento saudável. Isto não significa que devemos ir ao outro extremo e cegamente imitar as formas tradicionais de organização. Mas nós também não devemos cegamente rejeitá-las. Algumas técnicas tradicionais mostrar-se-ão úteis, ainda que imperfeitas; outras nos darão ideias sobre o que devemos fazer para obter certos fins com custos mínimos para as pessoas no movimento. Na maior parte dos casos, nós teremos que experimentar com formas diferentes de estruturação e desenvolver uma variedade de técnicas para usar em situações variadas. O “sistema de sorteio” é uma dessas ideias que emergiram do movimento. Ele não é aplicável a todas situações mas é útil em algumas. Outras ideias para a estruturação são necessárias. Mas antes que procedamos na experimentação inteligente, devemos aceitar a ideia de que não há nada de inerentemente ruim na estrutura em si mesma — apenas no seu uso excessivo.

Enquanto entramos nesse processo de tentativa e erro, existem alguns princípios que podemos ter em mente que são essenciais para a estruturação democrática e que são também politicamente eficazes:

  1. Delegação, por meios democráticos, de autoridade específica a indivíduos específicos para tarefas específicas. Deixar pessoas assumirem trabalhos ou tarefas por omissão ou negligência significa apenas que eles não serão feitos de forma segura. Se as pessoas são escolhidas para uma tarefa, preferencialmente após manifestarem um interesse ou vontade de fazê-la, elas assumem um compromisso que não pode ser facilmente ignorado.
  2. Exigência de que aqueles a quem a autoridade foi delegada sejam responsáveis frente aqueles que os escolheram. Essa é a forma pela qual o grupo tem controle sobre as pessoas em posições de autoridade. Indivíduos podem exercer o poder, mas é o grupo quem tem a última palavra sobre a forma como o poder é exercido.
  3. Distribuição da autoridade entre tantas pessoas quanto possa ser razoavelmente possível. Isso impede o monopólio do poder e exige daqueles em posições de autoridade que consultem muitas outras pessoas no exercício de seu poder. Também oferece a muitas pessoas a oportunidade de ter responsabilidade por tarefas específicas e dessa forma aprender habilidades específicas.
  4. Rotação de tarefas entre as pessoas. Responsabilidades que são mantidas durante muito tempo por uma mesma pessoa, formalmente ou informalmente, passam a ser vistas como sua “propriedade” e não são facilmente substituídas ou controladas pelo grupo. Inversamente, se a rotatividade das tarefas é muito frequente, as pessoas não têm tempo para aprender seu trabalho direito e adquirir o sentimento do trabalho bem feito.
  5. Alocação de tarefas segundo critérios racionais. Escolher pessoas para uma posição porque elas são queridas pelo grupo ou lhes dar um trabalho pesado porque não são queridas, prejudica, a longo prazo, o grupo e a pessoa. Habilidade, interesse e responsabilidade têm de ser as principais preocupações nessa seleção. As pessoas devem ter a oportunidade de aprender habilidades que não possuem, mas isso é melhor implementado por uma espécie de programa de “aprendizes” do que pelo método do “ou nada ou afoga”. Ter uma responsabilidade maior do que se aguenta pode ser desmoralizante. Inversamente, ser rejeitado naquilo que se faz bem não encoraja ninguém a desenvolver habilidades. As mulheres têm sido punidas por serem competentes por toda história humana. O movimento não precisa repetir esse processo.
  6. Difusão de informação a todos com a maior frequência possível. Informação é poder. O acesso à informação aumenta o poder. Quando uma rede informal dissemina novas ideias e informações entre si, sem passar pelo grupo, ela está envolvida num processo de formação de opinião sem a participação do grupo. Quanto mais se sabe como as coisas funcionam, mais politicamente eficaz se é.
  7. Acesso igualitário aos recursos necessários ao grupo. Isto nem sempre é possível, mas deve se lutar para consegui-lo. Um membro que mantenha um monopólio sobre um recurso necessário (por exemplo, uma gráfica ou um laboratório de revelação do marido) pode influenciar indevidamente o uso daquele recurso. Habilidades e informação também são recursos. E as habilidades e informações dos membros só estarão igualmente distribuídos quando os membros quiserem ensinar o que sabem para os outros.

Quando esses princípios são aplicados, eles asseguram que quaisquer estruturas que sejam desenvolvidas serão controladas pelo grupo e assumirão responsabilidades frente a ele. O grupo de pessoas em posição de autoridade será difuso, flexível, aberto e temporário. Eles não estarão numa posição que facilita a institucionalização do seu poder, porque as decisões definitivas serão feitas pelo grupo como um todo. O grupo terá assim o poder de determinar quem deve exercer a autoridade dentro dele.

Artigo de Jo Freeman, 1970

A Tirania das Organizações Sem Estrutura – Parte I

Artigo de Jo Freeman, 1970

Durante os anos em que o movimento feminista se formava, dava-se grande ênfase ao que se chamava de grupos sem estrutura, sem liderança, como a forma principal do movimento. Essa ideia tinha origem numa reação natural contra a sociedade superestruturada na qual a maioria de nós se encontrava, no controle inevitável que isso dava a outros sobre nossas vidas e no elitismo persistente da esquerda e de grupos similares entre aqueles que supostamente combatiam essa superestruturação.

A ideia da “ausência de estrutura”, no entanto, passou de uma oposição saudável a essas tendências a um dogma. A ideia é tão pouco examinada quanto o termo é utilizado, mas tornou-se uma parte intrínseca e inquestionada da ideologia feminista. Para o desenvolvimento inicial do movimento, isso não importava muito. Ele definiu inicialmente seu método principal como a conscientização e o “grupo de discussão sem estrutura” era um meio excelente para esse fim. Sua flexibilidade e informalidade encorajavam a participação na discussão e o ambiente frequentemente receptivo promovia a compreensão pessoal. Se nada de mais concreto que a compreensão pessoal resultasse desses grupos, isso não importava muito, porque seu propósito, na verdade, não ia além disso.

Os problemas básicos não apareceram até que grupos de discussão individuais exauriram as potencialidades da conscientização e decidiram que queriam fazer algo mais específico. Neste ponto, eles normalmente se atrapalhavam porque a maioria dos grupos não estava disposta a mudar sua estrutura na medida em que mudava sua tarefa. As mulheres tinham comprado totalmente a ideia de “ausência de estrutura” sem perceber as limitações de seus usos. As pessoas tentavam usar o grupo “sem estrutura” e a reunião informal para fins para os quais não eram apropriados, acreditando cegamente que quaisquer outros meios seriam simplesmente opressivos.

Se o movimento quiser avançar além desses estágios elementares de desenvolvimento, ele deverá livrar-se de alguns de seus preconceitos sobre organização e estrutura. Nenhum dos dois tem nada de intrinsecamente ruim. Eles podem e freqüentemente são mau usados, mas rejeitá-los de antemão porque são mau usados é nos negar as ferramentas necessárias ao nosso desenvolvimento ulterior. Precisamos entender porque a “ausência de estrutura” não funciona.

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A importância da crítica no desenvolvimento do movimento revolucionário – IV, V, VI

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IV.

Estes problemas a que faço referência, não são, para ninguém, um assunto novo. Há 85 anos já eram assinalados incisivamente por Camillo Berneri num artigo cujo tom, a qualquer um que leve já um bom tempo de militância no movimento anarquista, lhe soará tristemente atual e familiar:

(…) Somos imaturos. Tal é demonstrado pela discussão na União Anarquista fazendo subtis as palavras partido, movimento, sem entender que a questão não é de forma mas de substância, e que o que nos falta não é a exterioridade de partido, mas a consciência de partido.

O que quero dizer por consciência de partido?

Entendo algo mais que o fermento apaixonado de uma ideia, que a genérica exaltação de ideais. Entendo o conteúdo específico de um programa partidário. Estamos desprovidos de consciência política no sentido que não temos consciência dos problemas atuais e continuamos a defender soluções adquiridas pela nossa leitura de propaganda. Somos utópicos e basta. Que haja editores nossos que sigam reeditando os escritos dos maestros sem adicionar nunca uma nota crítica demonstrativa que a nossa cultura e a nossa propaganda estão em mãos de gente que tenta manter de pé o próprio caos em vez de empurrar o movimento a sair do já pensado para esforçar-se na crítica, no que está por pensar. Que haja polémicos que tentam engarrafar o adversário em vez de buscar a verdade, demonstra que entre nós há maçons, no sentido intelectual. Andamos a engarrafar para quem o artigo é um alívio ou uma vaidade e nós temos um conjunto de elementos que entorpecem o trabalho de renovação iniciado por um punhado de independentes que prometem.

O anarquismo deve ser amplo nas suas conceções, audaz, insaciável. Se quer viver e cumprir a sua missão de vanguarda deve diferenciar-se e conservar no alto a sua bandeira embora isto possa isolar-se ao restringido círculo dos seus. No entanto, esta especificidade do seu carácter e sua missão não exclui uma maior incorporação da sua ação nas fraturas da sociedade que morre e não nas construções a priori dos arquitetos do futuro. Tal como nas investigações científicas a hipótese pode iluminar o caminho do inquérito e quando é falsa a luz apaga-se, o anarquismo deve conservar aquele conjunto de princípios gerais que constituem a base do seu pensamento e o alimento passional da sua ação, pelo que deve saber confrontar o mecanismo complicado da sociedade atual sem óculos doutrinais e sem “apegos” excessivos à integridade da sua fé (…)

Haverá chegado a hora de acabar com os fármacos das fórmulas complicadas que não veem mais além dos seus jarros cheios de sumo;  haverá chegado a hora de acabar com os charlatães que embriagam o público com belas frases de elevada sonoridade; haverá chegado a hora de acabar com os simplórios que têm três ou quatro ideias enterradas na cabeça e exercem  como labaredas de fogo sagrado do ideal distribuindo excomunhões (…)

Quem tem um grão de inteligência e de boa vontade que se esforce com o seu próprio pensamento, que trate de ler na realidade algo mais do que o que o que lê nos livros e periódicos. Estudar os problemas de hoje quer dizer erradicar as ideias não pensadas, quer dizer ampliar a esfera da própria influência como propagandista, quer dizer fazer dar um passo adiante, mesmo um bom salto em comprimento, no nosso movimento.

É preciso buscar as soluções enfrentando-se os problemas. É preciso que adotemos novos hábitos mentais. Tal e qual como o naturalismo superou a escolástica medieval lendo o grande livro da natureza em vez dos textos aristotélicos, o anarquismo superará ao pedante socialismo científico, ao comunismo doutrinário fechado a priori nas suas caixas e a todas as demais ideologias cristalizadas.

Eu entendo por anarquismo crítico um anarquismo que, sem ser céptico, não se contenta com as verdades adquiridas, com as formas simplistas, um anarquista idealista e ao mesmo tempo realista; um anarquismo, em definitivo, que insira verdades novas no tronco das suas verdades fundamentais, sabendo podar os seus ramos velhos.

Não é um trabalho de demolição fácil, o niilismo hipercrítico, mas uma renovação que enriqueça o património original, adicionando forças e novas belezas. Este trabalho temos de fazê-lo agora, porque amanhã deveremos retomar a luta, que não encaixa bem com o pensamento, especialmente para nós que nunca nos podemos retirar dos campos quando a batalha se agrava.

Camillo Berneri

(Pagine Libertarie, Milão, 20 de Novembro de 1922)

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O papel do sindicato revolucionário no dia a dia da luta de classes

O grupo de tradução partilhado do CEL_Lisboa e da AIT-SP Lisboa começou a traduzir em Janeiro o livro “Fighting for Ourselves” da Solidarity Federation (Secção do Reino Unido da IWA-AIT). Optámos por iniciar esta aventura pelo capítulo final, em que se analisa o campo de ação do anarco-sindicalismo no século XXI. Iremos publicar semanalmente cada parte deste capítulo, seguindo depois com os restantes capítulos.


O papel do sindicato revolucionário no dia a dia da luta de classes

O que estamos a descrever é por vezes referido como sindicalismo minoritário, mas isto é de certa forma enganador por dois motivos. Primeiramente, como demonstrado já anteriormente, muitos dos grandes sindicatos reformistas são na prática, em termos de presença nos locais de trabalho, organizações de minorias. Não é raro nem sequer haver ativistas sindicais num determinado local de trabalho “sindicalizado”. Mesmo quando há, o mais comum é um ou dois a trabalharem para todo um departamento ou empregador. É raro num sindicato reformista encontrarmos uma larga densidade de militantes num só local de trabalho. Portanto todos os sindicatos, em termos de atividade quotidiana, são como Emile Pouget disse, “uma minoria ativa.” Em segundo lugar, não somos uma minoria propositadamente, mas sim devido à atual situação. Nós, é claro, procuramos a mais ampla adoção possível dos princípios e métodos anarco-sindicalistas por toda a classe trabalhadora. Apenas não vemos razão para esperar até esse momento para nos organizarmos. Precisamos de usar a nossa capacidade de organização nas lutas do aqui e agora.

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A importância da crítica no desenvolvimento do movimento revolucionário – I, II, III

O seguinte artigo foi traduzido por Liliana Silva (CEL_Lisboa) e será lançado distribuído em três publicações, sendo esta a primeira. A autoria é de José Antonio Gutiérrez e foi pela primeira vez publicado no site anarkismo.net

I.

Não é pouco frequente que escutemos, quando se fala das diferenças entre o anarquismo e as outras correntes de esquerda, que esta seja uma corrente “livre de dogmas”, “aberta sobre si mesma” e “dada ao desenvolvimento mediante a crítica livre”. Isto tem se repetido exaustiva e insaciavelmente, assumindo-se em comum tal coisa como uma virtude suprema do anarquismo. Contudo, ao menor contacto com a verdade dos círculos anarquistas, entramos numa realidade bem diferente destas declarações auto-complacentes. Apesar de tudo o que se diz acerca da falta de “dogmatismo” no anarquismo, o que encontramos frequentemente é a falta de reflexão sistemática juntamente com uma maior desobediência a dogmatismos, onde a análise tranquila da realidade é substituída por uma série de categorias apriorísticas e incompatíveis com a mesma. Longe de encontrar um ambiente favorável ao desenvolvimento da crítica, encontramos um movimento paranóico que tende a levar a crítica como um ataque, sendo demasiado tímido para discutir em termos efetivos as verdadeiras variações junto do seu seio. Assim, encontramos um movimento que, longe de aceitar as diferenças, discutindo-as ativamente, está sempre pronto a excomungá-las. Tal coisa não deriva desta ou daquela publicação, desta ou daquela personalidade do movimento (embora hajam claramente aqueles que levam esta tendência a níveis patológicos), sendo sim um defeito profundamente enraizado no movimento libertário que afecta praticamente todos os seus sectores e correntes.

Na verdade, o anarquismo ainda tem muitas falhas. Enquanto movimento, sofremos de bastantes coisas, este é ainda pouco desenvolvido, apesar da nossa enorme história. No entanto uma das carências que mais nos atinge é a ausência de uma tradição autêntica de debate. Porque onde não há discussão há dogmatismo e onde há dogmatismo, há ignorância. Onde a discussão não surge livremente, o que prevalece é a falta de dinamismo nas ideias e a desconexão com a realidade. Em semelhante ambiente não é possível proporcionar-se o crescimento de um movimento saudável, com ambições de transformar o mundo atual.

II.

Carecemos de uma tradição de discutir. Estamos demasiado acostumados a “denunciarmo-nos” em vez de discutir. Há muitos do nosso movimento que são mais próximos ao espírito de Torquemeda que ao espírito de Bakunin. Há muitos que preferem desperdiçar o seu tempo a “vigiar” os passos dos outros anarquistas e a denunciar o que consideram como um desvio, ao invés de contribuir para a construção concreta de um movimento. Assim, o anarquismo aparece em vez de uma ferramenta de transformação do mundo, mais como um conjunto de dogmas elementares, de rudimentos políticos mal dirigidos, de slogans vagos e gerais que substituem a reflexão política séria. A simplificação remove espaço ao pensamento articulado. Temos demasiados defensores auto-proclamados da fé e demasiado poucos anarquistas dispostos a desafiar o presente para explorar novos caminhos para o anarquismo num mundo que não deixa de girar.

Em vez de aceitar as diferenças de opinião como tal e proceder a alterá-las, respeitosamente, energeticamente e sempre com um espírito construtivo, denunciamo-las e desqualificamo-las. Não sabemos debater e frequentemente as nossas discussões têm-se transformado em questões de princípio e todas as divergências táticas são elevadas à categoria dos princípios eternos do anarquismo. Pierre Monatte, o velho anarco-sindicalista francês que se queixava no congresso de Amesterdão (em 1907!) de que “Existem camaradas, que, por tudo, incluindo pelas coisas mais fúteis, sentem necessidade de levantar questões de princípio”. Dito isto, parece que a cada diferença estamos a julgar a razão de sermos anarquistas e as posições divergentes são caricaturadas como “autoritárias”, “totalitárias”, “marxistas”, “reformistas” etc… Rótulos bastante úteis para evitar abordar as discussões de maneira política e não histérica. No nosso movimento, lamentavelmente, tende-se a adornar, qualquer argumentação, com um sem número de adjetivos qualificativos que não apontam nada, absolutamente nada, ao esclarecimento do assunto em debate. Assim, cada debate em torno do anarquismo termina num conflito para ver quem é mais anarquista, quem é que conserva a linha sagrada… e não quem tem a razão à luz da realidade.

Dá a entender que neste ambiente de “denúncias” e ausência de debate, a própria realidade não passa de um aspecto secundário que pouco ou nada contribui para qualquer matéria que esteja em cima da mesa.

III.

Este sectarismo e dogmatismo também se vêem refletidos na nossa propaganda. Temos inclusivamente chegado a extremos em que publicações anarquistas completas gastam uma enorme quantidade de tinta e papel em atacar outros anarquistas, em vez de discutir saudavelmente ou atacar aqueles que realmente fodem a vida a milhões de pessoas neste mundo. Quem age desta maneira causa um enorme dano ao movimento: não somente alimentando tendências centrípetas no anarquismo mas persuadindo leitores não familiarizados com as nossas ideias, de que o anarquismo é um movimento de espírito mesquinho, estreito e pequeno, deslumbrado pelas suas próprias vaidades e insensível aos verdadeiros problemas do nosso tempo. Porquê unir-me a um movimento que está demasiado ocupado com a tarefa inquisitorial para se preocupar com a problemática do quotidiano do conjunto de oprimidos, pobres, explorados e marginalizados?

Esta virulência nos ataques a quem pensa ou age de maneira diferente e este sectarismo, têm chegado ao cúmulo com as possibilidades abertas pela internet e pela comunicação virtual. Hoje em dia qualquer um pode insultar cobarde e gratuitamente desde a comodidade da sua casa e com o brinde da proteção pelo anonimato, organizações ou referentes do movimento libertário que estão a dar a sua cara e pele. Qualquer um pode dar “rédia solta” aos seus incentivos destrutivos e ao seu espírito miserável para condenar os esforços levantados, muitas vezes com enormes sacrifícios por camaradas que se estão a dar aos atos que podem levar-nos a uma alternativa libertária. Com todas as possibilidades abertas pela internet para trocar experiências e discutir, é claro que a maioria dos fóruns são bastante pobres e que onde há mais tráfico de comentários, são apenas para insultar ou desqualificar. Esta é uma realidade extremamente triste e dolorosa para quem quer ser honesto nesta luta.

Isto é próprio de movimentos alienados da realidade, e na verdade, ainda nas fileiras do anarquismo existem muitos que carecem de contacto – num sentido orgânico, obviamente – com o mundo popular ou carecem de qualquer esforço para levantar um trabalho construtivo junto dos explorados. A luta não basta conhecê-la pelos livros da história, sendo que devemos saber fazê-la acontecer no dia-a-dia. Com gente desenraizada das lutas e organizações populares cremos que é difícil um debate efetivamente construtivo, pois ao carecer da experiência prática, são incapazes de manter a discussão no plano da realidade e são facilmente arrastados ao Olimpo das abstrações principais. E daí, às denúncias de “traição ao anarquismo”. Este é o seu verdadeiro fundamento, e portanto frente às diferenças, a sua reação natural é a de se refugiar na seguridade da sua própria facção, um punhado de guardiões da fé.

José Antonio Gutiérrez

Continuação: https://apoiomutuopt.wordpress.com/2017/03/09/a-importancia-da-critica-no-desenvolvimento-do-movimento-revolucionario-iv-v-vi/

Versão ES

A Organização II, Malatesta

Estando admitida a existência de uma coletividade organizada sem autoridade, isto é, sem coerção, caso contrário, a anarquia não teria sentido, falemos da organização do partido anarquista.

Mesmo nesses casos, a organização nos parece útil e necessária. Se o partido, ou seja, o conjunto dos indivíduos que têm um objetivo em comum e se esforçam para alcançá-lo, é natural que se entendam, unam suas forças, compartilhem o trabalho e tomem todas as medidas adequadas para desempenhar esta tarefa. Permanecer isolado, agindo ou querendo agir cada um por sua conta, sem se entender com os outros, sem preparar-se, sem enfeixar as fracas forças dos isolados, significa condenar-se à fraqueza, desperdiçar sua energia em pequenos atos ineficazes, perder rapidamente a fé no objetivo e cair na completa inação.

Mas isto parece de tal forma evidente que, ao invés de fazer sua demonstração, responderemos aos argumentos dos adversários da organização.

Antes de mais nada, há uma objeção, por assim dizer, formal. “Mas de que partido nos falais? Dizem-nos, nem sequer somos um, não temos um programa”. Este paradoxo significa que as idéias progridem, evoluem continuamente, e que eles não podem aceitar um programa fixo, talvez válido hoje, mas que estará com certeza ultrapassado amanhã.

Seria perfeitamente justo se se tratasse de estudantes que procuram a verdade, sem se preocuparem com as aplicações práticas. Um matemático, um químico, um psicólogo, um sociólogo podem dizer que não há outro programa senão o de procurar a verdade: eles querem conhecer, mas sem fazer alguma coisa. Mas a anarquia e o socialismo não são ciências: são proposições, projetos que os anarquistas e os socialistas querem por em prática e que, conseqüentemente, precisam ser formulados como programas determinados. A ciência e a arte das construções progridem a cada dia. Mas um engenheiro, que quer construir ou mesmo demolir, deve fazer seu plano, reunir seus meios de ação e agir como se a ciência e a arte tivessem parado no ponto em que as encontrou no início de seu trabalho. Pode acontecer, felizmente, que ele possa utilizar novas aquisições feitas durante seu trabalho sem renunciar à parte essencial de seu plano. Pode acontecer do mesmo modo que as novas descobertas e os novos meios industriais sejam tais que ele se veja na obrigação de abandonar tudo e recomeçar do zero. Mas ao recomeçar, precisará fazer novo plano, com base no conhecimento e na experiência; não poderá conceber e por-se a executar uma construção amorfa, com materiais não produzidos, a pretexto que amanhã a ciência poderia sugerir melhores formas e a indústria fornecer materiais de melhor composição.

Entendemos por partido anarquista o conjunto daqueles que querem contribuir para realizar a anarquia, e que, por consequência, precisam fixar um objetivo a alcançar e um caminho a percorrer. Deixamos de bom grado às suas elucubrações transcendentais os amadores da verdade absoluta e de progresso contínuo, que, jamais colocando suas ideias à prova, acabam por nada fazer ou descobrir.

A outra objeção é que a organização cria chefes, uma autoridade. Se isto é verdade, se é verdade que os anarquistas são incapazes de se reunirem e de entrarem em acordo entre si sem se submeter a uma autoridade, isto quer dizer que ainda são muito pouco anarquistas. Antes de pensar em estabelecer a anarquia no mundo, devem pensar em se tornar capazes de viver como anarquistas. O remédio não está na organização, mas na consciência perfectível dos membros.

Evidentemente, se numa organização, deixa-se a alguns todo o trabalho e todas as responsabilidades, se nos submetemos ao que fazem alguns indivíduos, sem pôr a mão na massa e procurar fazer melhor, esses “alguns” acabarão, mesmo que não queiram, substituindo a vontade da coletividade pela sua. Se numa organização todos os membros não se interessam em pensar, em querer compreender, em pedir explicações sobre o que não compreendem, em exercer sobre tudo e sobre todos as suas faculdades críticas, deixando a alguns a responsabilidade de pensar por todos, esses “alguns” serão os chefes, as cabeças pensantes e dirigentes.

Todavia, repitamos, o remédio não está na ausência de organização. Ao contrário, nas pequenas como nas grandes sociedades, excetuando a força brutal, a qual não nos diz respeito no caso em questão, a origem e a justificativa da autoridade residem na desorganização social. Quando uma coletividade tem uma necessidade e seus membros não estão espontaneamente organizados para satisfazê-la, surge alguém, uma autoridade que satisfaz esta necessidade servindo-se das forças de todos e dirigindo-as à sua maneira. Se as ruas são pouco seguras e o povo não sabe se defender, surge uma polícia que, por uns poucos serviços que presta, faz com que a sustentem e a paguem, impõe-se a tirania. Se há necessidade de um produto e a coletividade não sabe se entender com os produtores longínquos para que eles enviem esse produto em troca por produtos da região, vem de fora o negociante que se aproveita da necessidade que possuem uns de vender e outros de comprar e impõe os preços que quer a produtores e consumidores.

Como vedes, tudo vem sempre de nós: quanto menos estávamos organizados, mais nos encontrávamos sob a dependência de certos indivíduos. E é normal que tivesse sido assim.

Precisamos estar relacionados com os camaradas das outras localidades, receber e dar notícias, mas não podemos todos nos correspondermos com todos os camaradas. Se estamos organizados, encarregamos alguns camaradas de manter a correspondência por nossa conta; trocamo-os se eles não nos satisfazem, e podemos estar informados sem depender da boa vontade de alguns para obter uma informação. Se, ao contrário, estamos desorganizados, haverá alguém que terá os meios e a vontade de corresponder; ele concentrará em suas mãos todos os contatos, comunicará as notícias como bem quiser, a quem quiser. E se tiver atividade e inteligência suficientes, conseguirá, sem nosso conhecimento, dar ao movimento a direção que quiser, sem que nos reste a nós, a massa do partido, nenhum meio de controle, sem que ninguém tenha o direito de se queixar, visto que este indivíduo age por sua conta, sem mandato de ninguém e sem ter que prestar contas a ninguém de sua conduta.

Precisamos de um jornal. Se estamos organizados, podemos reunir os meios para fundá-lo e fazê-lo viver, encarregar alguns camaradas de redigi-lo e controlar sua direção. Os redatores do jornal lhe darão, sem dúvida, de modo mais ou menos claro, a marca de sua personalidade, mas serão sempre pessoas que teremos escolhido e que poderemos substituir. Se, ao contrário, estamos desorganizados, alguém que tenha suficiente espírito de empreendimento fará o jornal por sua própria conta: encontrará entre nós os correspondentes, os distribuidores, os assinantes, e fará com que sirvamos seus desígnios, sem que saibamos ou queiramos. E nós, como muitas vezes aconteceu, aceitaremos ou apoiaremos este jornal, mesmo que não nos agrade, mesmo que tenhamos a opinião de que é nocivo à Causa, porque seremos incapazes de fazer um que melhor represente nossas idéias.

Desta forma, a organização, longe de criar a autoridade, é o único remédio contra ela e o único meio para que cada um de nós se habitue a tomar parte ativa e consciente no trabalho coletivo, e deixe de ser instrumento passivo nas mãos dos chefes.
Se não fizer nada e houver inação, então, certamente, não haverá nem chefe, nem rebanho; nem comandante, nem comandados, mas, neste caso, a propaganda, o partido, e até mesmo a discussão sobre a organização, cessarão, o que, esperamos, não é o ideal de ninguém…

Contudo, uma organização, diz-se supõe a obrigação de coordenar sua própria ação e a dos outros, portanto, violar a liberdade, suprimir a iniciativa. Parece-nos que o que realmente suprime a liberdade e torna impossível a iniciativa é o isolamento que produz a impotência. A liberdade não é direito abstrato, mas a possibilidade de fazer algo. Isto é verdade para nós como para a sociedade em geral. É na cooperação dos outros que o homem encontra o meio de exercer sua atividade, seu poder de iniciativa.

Evidentemente, organização significa coordenação de forças com um objetivo comum, e obrigação de não promover ações contrárias a este objetivo. Mas quando se trata de organização voluntária, quando aqueles que dela fazem parte têm de fato o mesmo objetivo e são partidários dos mesmos meios, a obrigação recíproca que a todos engaja obtém êxito em proveito de todos. Se alguém renuncia a uma de suas idéias pessoais por consideração à união, isto significa que acha mais vantajoso renunciar a uma idéia, que, por sinal, não poderia realizar sozinho, do que se privar da cooperação dos outros no que acredita ser de maior importância.

Se, em seguida, um indivíduo vê que ninguém, nas organizações existentes, aceita suas idéias e seus métodos naquilo que têm de essencial, e que em nenhuma organização pode desenvolver sua personalidade como deseja, então estará certo em permanecer de fora. Mas, se não quiser permanecer inativo e impotente, deverá procurar outros indivíduos que pensem como ele, e tornar-se iniciador de uma nova organização.

Uma outra objeção, a última que abordaremos, é que, estando organizados, estamos mais expostos à repressão governamental.

Parece-nos, ao contrário, que quanto mais unidos estamos, mais eficazmente nos podemos defender. Na realidade, cada vez que a repressão nos surpreendeu enquanto estávamos desorganizados, colocou-nos em debandada total e aniquilou nosso trabalho precedente. Quando estávamos organizados, ela nos fez mais bem do que mal. Assim também no que concerne ao interesse pessoal dos indivíduos: por exemplo, nas últimas repressões, os isolados foram tanto e talvez mais gravemente atingidos do que os organizados. É o caso, organizados ou não, dos indivíduos que fazem propaganda individual. Para aqueles que nada fazem e ocultam suas convicções, o perigo é certamente mínimo, mas a utilidade que oferecem à Causa também o é.
O único resultado, do ponto de vista da repressão, que se obtém por estar desorganizado é autorizar o governo a nos recusar o direito de associação e tornar possível monstruosos processos por associação delituosa. O governo não agiria dessa forma em relação às pessoas que afirmam de modo altivo e público, o direito e o fato de estarem associados e, se ousasse fazê-lo, isto se voltaria contra ele e em nosso proveito.

De resto, é natural que a organização assuma as formas que as circunstâncias aconselham e impõem. O importante não é tanto a organização formal, mas o espírito de organização. Podem acontecer casos, durante o furor da reação, em que seja útil suspender toda correspondência, cessar todas as reuniões: será sempre um mal, mas se a vontade de estar organizado subsiste, se o espírito de associação permanece vivo, se o período precedente de atividade coordenada multiplicou as relações pessoais, produziu sólidas amizades e criou um real acordo de idéias de conduta entre os camaradas, então o trabalho dos indivíduos, mesmo isolados, participará do objetivo comum. E encontrar-se-á rapidamente o meio de nos reunirmos de novo e repararmos os danos sofridos.

Somos como um exército em guerra e podemos, segundo o terreno e as medidas tomadas pelo inimigo, combater em massa ou em ordem dispersa: o essencial é que nos consideremos sempre membros do mesmo exército, que obedeçamos todos às mesmas idéias diretrizes e que estejamos sempre prontos a nos reunirmos em colunas compactas quando for necessário e quando se puder fazer algo.

Tudo o que dissemos se dirige aos camaradas que são de fato adversários do princípio da organização. Àqueles que combatem a organização, somente porque não querem nela entrar, ou não são aceitos, ou não simpatizam com os indivíduos que dela fazem parte, dizemos: façam com aqueles que estão de acordo com vocês outra organização. É verdade, gostaríamos de poder estar, todos nós, de acordo, e reunir em um único feixe poderoso todas as forças do anarquismo. Mas não acreditamos na solidez das organizações feitas à força de concessões e de restrições, onde não há entre os membros simpatia e concordância real. É melhor estarmos desunidos que mal unidos. Mas gostaríamos que cada um se unisse com seus amigos e que não houvessem forças isoladas, forças perdidas.

Errico Malatesta, primeira edição em Agitazione de Ancone, 11/07/1897

retirado de https://www.marxists.org/portugues/malatesta/1897/07/11.htm

De organização de propaganda a sindicato revolucionário

O grupo de tradução partilhado do CEL_Lisboa e da AIT-SP Lisboa começou a traduzir em Janeiro o livro “Fighting for Ourselves” da Solidarity Federation (Secção do Reino Unido da IWA-AIT). Optámos por iniciar esta aventura pelo capítulo final, em que se analisa o campo de ação do anarco-sindicalismo no século XXI. Iremos publicar semanalmente cada parte deste capítulo, seguindo depois com os restantes capítulos.


ANARCO-SINDICALISMO NO SÉCULO XXI

Introdução

Neste último capítulo, apresentamos a nossa visão sobre o anarco-sindicalismo hoje. Analisamos desde como passar de uma simples organização de propaganda política para um sindicato revolucionário capaz de tomar a iniciativa de organizar e catalisar a luta de classes no âmbito económico e social.  Fulcral a esta estratégia é o potencial da ação direta para proporcionar confiança, capacidade e auto-organização dentro da classe trabalhadora, e assim lutar servindo como “escola do socialismo”. Defendemos que um sindicato revolucionário é uma componente essencial para um movimento revolucionário dos trabalhadores. Não só para a organização e catalisação da luta, como também para fornecer tanto uma infraestrutura física como organizacional para a classe operária, e um ponto de partida para inúmeras iniciativas de anti-opressão, auto-educação e cultura, tanto dentro desta como para além das suas fileiras. Apresentamos como é que este tipo de organização política e económica pode ajudar o reaparecimento de um movimento militante e revolucionário dos trabalhadores e a necessidade de unificar todos os trabalhadores revolucionários do mundo. Para finalizar, iremos fazer um esboço de como uma revolução social pode vir a ser numa escala mundial e o papel revolucionário que os sindicatos revolucionários devem ter nesse processo.

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