Category Archives: Organização

O Paradigma da Revolução Espanhola e o Movimento Anarco-Sindicalista

Dia 19 de Julho de 2017, fazem 81 anos desde o começo da resistência popular contra o golpe de estado fascista em Espanha, o começo daquele que é provavelmente o processo revolucionário que mais marcou o ideário do movimento anarco-sindicalista internacional até aos dias de hoje. Falar da Revolução Espanhola é falar de uma revolução que apesar de tudo o que nos demonstrou ou reafirmou ser possível, foi derrotada. O movimento anarco-sindicalista, na sua generalidade, tem explicado esta derrota simplesmente como derivada da traição do PSUC (estalinista) e do virar de costas das democracias burguesas europeias. Tem faltado um reconhecimento e uma autocrítica sobre como o modelo de atuação anarco-sindicalista também pode ter tido a sua parte da responsabilidade nesta derrota; pouco se tem debruçado sobre a traição dos dirigentes da CNT à classe trabalhadora e a forma como o movimento não teve capacidade de resistir à degeneração levada a cabo pelos mesmos.

Continue reading O Paradigma da Revolução Espanhola e o Movimento Anarco-Sindicalista

Uma proposta para os feminismos de classe

Texto de Ineso traduzido e adaptado por Liliana Silva e Clara Orfiso, originalmente publicado em Regeneración Libertaria a 30/04/16


Escrevo este texto enquanto fruto de debates e experiências coletivas em que se constatou que os feminismos de classe da atualidade não se encontram numa situação de ataque à estrutura patriarcal, como se suponha que deveriam estar.  Tal poderá ser consequência de não se planificarem estratégias e linhas de ação, por falta de propostas mais além do que a formação teórica e as concentrações por mulheres assassinadas e outros crimes de violência de género. Nesse sentido aqui vai uma das contribuições das quais nos iremos servir.

Nestes últimos anos têm-se ativado vários grupos feministas que reinvidicam um aborto livre e gratuito e neste momento estamos diante de várias demonstrações que reúnem o movimento, exemplo disso são as mobilizações do 7N*. Porém não há propostas contra a barbárie patriarcal. O conjunto de manifestações resume-se a protestar que não queremos ser mortas e que iremos lutar pelo que faz falta, apesar de não sabermos como.

Em muitos debates que tenho tido com camaradas, tem-se visto como possibilidade ter uma frente feminista forte através da qual conquistaremos os nossos interesses. Partindo de que seria praticamente composta na sua totalidade por mulheres, não acredito que seja produtivo ter uma frente feminista como eixo central da luta feminista. Acredito que a luta feminista deve estar sempre de mão dada com a luta anti-capitalista porque separá-las leva-nos a:

  • Que as mulheres das classes desfavorecidas que queiram lutar pela sua emancipação tenham que ter dupla militância: nas organizações feministas e nas da classe. Por um lado, isto leva ao debilitar de ambas as organizações já que as mulheres trabalhadoras não têm no seu conjunto as condições favoráveis para poder exercer este grau de ativismo, diminuindo assim a nossa potencialidade de construir poder popular. Por outro lado, perpetua-se na militância a dupla jornada laboral das mulheres, tendo os homens privilégio na própria estruturação da luta feminista.
  • Que os homens continuem a liderar as lutas das desfavorecidas, tanto porque as mulheres não poderiam militar nas organizações de classe como militam os homens, e porque nestas organizações não se constrói um espaço em que as mulheres estejam empoderadas e seguras.

Então, propõe-se que desde as organizações políticas libertárias nos encarreguemos de analisar o patriarcado em todos os seus espectros das nossas vidas, inserindo tanto o feminismo como o anti-capitalismo nas lutas coletivas. Ao inserir o feminismo nas organizações de trabalhadoras, todas lutaríamos enquanto classe pelos objetivos do feminismo. Além disso, as mulheres atuariam como vanguarda feminista assim como garantiriam que os espaços de luta são espaços seguros para todas: somos as principais interessadas em acabar com o patriarcado. Se não trabalharmos junto de quem exerce violência sobre nós, estes nunca deixarão de exercê-la. É absurdo separar a luta feminista da anti-capitalista quando uma carece de sentido sem a outra: não acabaremos com o capitalismo sem acabar com o patriarcado e vice-versa. Por isso temos que dotar-nos de mecanismos que façam destas lutas, as lutas das maiorias, e que vão desenvolvendo a construção de um projeto revolucionário que acabe com a estrutura patriarcal e capitalista.

Adicionar o feminismo às lutas coletivas, significa inseri-lo nas frentes de massas em que nos movimentamos. Em cada uma destas frentes o que há em comum é que todas lutaríamos como classe contra o patriarcado e que nestas somos as mulheres, a vanguarda feminista, onde atuaríamos como filtro para todo o trabalho feminista que é feito e seríamos as que garantem que os espaços em que nos movemos são seguros para todas, para assim acabar com o privilégio masculino nas lutas de classe. Neste caso as propostas são para as frentes laboral, comunitária e estudantil:

  • Para a frente laboral toca a combater a forma em que o patriarcado se apresente neste âmbito. Principalmente, o que reconhecemos na forma de desigualdade salarial e segregação do trabalho por géneros. Combater a desigualdade salarial deveria ser desde o sindicalismo do mesmo em que qualquer luta sindical, uma luta que afete todas as afiliadas por simples solidariedade. A segregação por géneros é outra forma de desigualdade salarial, onde os trabalhos de cuidados são destinados a mulheres e recebem uma remuneração muito menor do que os que podem ter trabalhos como técnicos, assim que se podem começar a combater da mesma maneira. Também se trata de buscar mecanismos que garante a participação de todos os géneros nestes trabalhos. Adicionar que no trabalho também se dão condutas de perseguição, discriminação, humilhação… às mulheres por serem mulheres. A partir da parte sindical poder-se-ia lutar para que no trabalho se garantisse a segurança das mulheres, com protocolos etc, e redes de apoio de mulheres dentro destes. Faço um ponto à parte para a prostituição. Desde o feminismo de classe poder-se-ia lutar pela legalização das cooperativas de prostitutas, onde sejam elas quem decide as suas condições de trabalho e não sejam exploradas por homens. **
  • No âmbito estudantil, as principais problemáticas que encontramos são as relações dentro da comunidade educativa, em especial com as estudantes. Aqui destacam-se os distintos assédios recebidos pelas mulheres, tanto na forma de violência estética ou sexual. Para construir empoderamento neste campo podemos começar pela criação de redes de apoio entre as estudantes afetadas, pela demonstração a quem agride de que não estamos sozinhas, e quando necessário, pela confrontação dos agressores. Nos centros educativos também destaca-se a importância de papéis patriarcais. No nosso modelo educativo o contrapoder, deve ser um dos pilares rompedores com tudo isto, desde ir acabando com “o espaço comunicativo da aula é basicamente masculino”, a inviabilização das mulheres no estúdio e a imposição de tarefas segundo o género, fazer ter educação sexual formada no consenso e nas relações sexo-afetivas. 
  • Na frente comunitária, o feminismo pode tratar de tudo o que nos afeta na vida diária, fora do meio estudantil e laboral. Aqui entra tudo o que é do âmbito privado e dos lugares de socialização. Seria a partir daqui que se combateriam reformas como a do aborto. Desde a frente comunitária deve ser básica a garantia de habitação às mulheres que sofrem de violência económica impedindo-as de se emancipar dos seus agressores, o mesmo com as famílias desfavorecidas. Deve garantir-se uma alternativa tanto a mulheres que vivem com os seus violadores como a mulheres que estão na prostituição contra a sua vontade. Para isto ajuda que tenhamos pontos de apoio para mulheres nos nossos centros sociais, enquadrados em instituições populares que garantam o já referido.
    Na frente comunitária é sem dúvida necessário potencializar redes de apoio mútuo entre mulheres, onde ajudar em situação de agressão ou outra possível situação de perigo seja um dos objetivos principais.

Enfrentar estas lutas apenas desde organizações unicamente de mulheres do meu ponto de vista não é mais do que perpetuar a atomização neoliberal. Com este modo de focar a luta feminista passamos de ter uma luta derrotista onde participa uma pequena parte das mulheres a uma luta com objetivos claros que se será cada vez mais numerosa ao conquistar as suas vitórias, na qual lutamos todas e onde nós mulheres somos a vanguarda. Por outro lado, é como integrar a frente feminista em todas as demais frentes, não propagando o isolamento a uma luta unicamente de mulheres.

Resta tudo por construir, tudo por lutar. Estas tentam ser umas das primeiras pinceladas para um feminismo combativo adaptado ao nosso contexto, que construa poder popular desde o feminismo. Com a análise das distintas realidades em que trabalhamos saberemos como lutar contra o patriarcado nas suas distintas manifestações e seremos melhores estrategas que os que lutam pela permanência da estrutura.

 

¡Qué los femicidios serán disturbios!

*Marcha realizada a 7 de Novembro contra a violência de gênero

**Esta posição não é partilhada pelxs integrantes da Apoio Mútuo. Consideramos que a prostituição nunca será isenta de exploração, sendo que ela própria é a mercantilização direta de corpos, especialmente de mulheres. Assim, não apoiamos a legalização da prostituição, até porque em países onde o mesmo aconteceu, verificou-se um aumento de tráfico de pessoas para a prostituição e não houve melhoria das condições de segurança das pessoas prostituídas. A prostituição é inerentemente violenta, classista e misógina.

A Tirania das Organizações Sem Estrutura – Parte II

Anterior: https://apoiomutuopt.wordpress.com/2017/05/20/a-tirania-das-organizacoes-sem-estrutura-parte-i/


Impotência política

Grupos inestruturados podem ser muito eficazes para fazer as mulheres falarem sobre suas vidas, mas eles não são muito bons para fazer as coisas acontecerem. A não ser que o modo de operação mude, os grupos tropeçam quando chega o momento em que as pessoas se cansam de “apenas conversar” e querem fazer algo mais. Uma vez que o movimento como um todo, na maioria das cidades, é tão inestruturado quanto os grupos de discussão individuais, ele não é muito mais eficaz em tarefas específicas do que os grupos separados. A estrutura informal está raramente suficientemente junta ou suficientemente em contato com as pessoas para ser capaz de operar eficazmente. Assim, o movimento gera muita emoção e poucos resultados. Infelizmente, as consequências de toda essa emoção não são tão inócuas quanto os resultados e a vítima é o próprio movimento.

Continue reading A Tirania das Organizações Sem Estrutura – Parte II

A Tirania das Organizações Sem Estrutura – Parte I

Artigo de Jo Freeman, 1970

Durante os anos em que o movimento feminista se formava, dava-se grande ênfase ao que se chamava de grupos sem estrutura, sem liderança, como a forma principal do movimento. Essa ideia tinha origem numa reação natural contra a sociedade superestruturada na qual a maioria de nós se encontrava, no controle inevitável que isso dava a outros sobre nossas vidas e no elitismo persistente da esquerda e de grupos similares entre aqueles que supostamente combatiam essa superestruturação.

A ideia da “ausência de estrutura”, no entanto, passou de uma oposição saudável a essas tendências a um dogma. A ideia é tão pouco examinada quanto o termo é utilizado, mas tornou-se uma parte intrínseca e inquestionada da ideologia feminista. Para o desenvolvimento inicial do movimento, isso não importava muito. Ele definiu inicialmente seu método principal como a conscientização e o “grupo de discussão sem estrutura” era um meio excelente para esse fim. Sua flexibilidade e informalidade encorajavam a participação na discussão e o ambiente frequentemente receptivo promovia a compreensão pessoal. Se nada de mais concreto que a compreensão pessoal resultasse desses grupos, isso não importava muito, porque seu propósito, na verdade, não ia além disso.

Os problemas básicos não apareceram até que grupos de discussão individuais exauriram as potencialidades da conscientização e decidiram que queriam fazer algo mais específico. Neste ponto, eles normalmente se atrapalhavam porque a maioria dos grupos não estava disposta a mudar sua estrutura na medida em que mudava sua tarefa. As mulheres tinham comprado totalmente a ideia de “ausência de estrutura” sem perceber as limitações de seus usos. As pessoas tentavam usar o grupo “sem estrutura” e a reunião informal para fins para os quais não eram apropriados, acreditando cegamente que quaisquer outros meios seriam simplesmente opressivos.

Se o movimento quiser avançar além desses estágios elementares de desenvolvimento, ele deverá livrar-se de alguns de seus preconceitos sobre organização e estrutura. Nenhum dos dois tem nada de intrinsecamente ruim. Eles podem e freqüentemente são mau usados, mas rejeitá-los de antemão porque são mau usados é nos negar as ferramentas necessárias ao nosso desenvolvimento ulterior. Precisamos entender porque a “ausência de estrutura” não funciona.

Continue reading A Tirania das Organizações Sem Estrutura – Parte I

A Organização II, Malatesta

Estando admitida a existência de uma coletividade organizada sem autoridade, isto é, sem coerção, caso contrário, a anarquia não teria sentido, falemos da organização do partido anarquista.

Mesmo nesses casos, a organização nos parece útil e necessária. Se o partido, ou seja, o conjunto dos indivíduos que têm um objetivo em comum e se esforçam para alcançá-lo, é natural que se entendam, unam suas forças, compartilhem o trabalho e tomem todas as medidas adequadas para desempenhar esta tarefa. Permanecer isolado, agindo ou querendo agir cada um por sua conta, sem se entender com os outros, sem preparar-se, sem enfeixar as fracas forças dos isolados, significa condenar-se à fraqueza, desperdiçar sua energia em pequenos atos ineficazes, perder rapidamente a fé no objetivo e cair na completa inação.

Mas isto parece de tal forma evidente que, ao invés de fazer sua demonstração, responderemos aos argumentos dos adversários da organização.

Antes de mais nada, há uma objeção, por assim dizer, formal. “Mas de que partido nos falais? Dizem-nos, nem sequer somos um, não temos um programa”. Este paradoxo significa que as idéias progridem, evoluem continuamente, e que eles não podem aceitar um programa fixo, talvez válido hoje, mas que estará com certeza ultrapassado amanhã.

Seria perfeitamente justo se se tratasse de estudantes que procuram a verdade, sem se preocuparem com as aplicações práticas. Um matemático, um químico, um psicólogo, um sociólogo podem dizer que não há outro programa senão o de procurar a verdade: eles querem conhecer, mas sem fazer alguma coisa. Mas a anarquia e o socialismo não são ciências: são proposições, projetos que os anarquistas e os socialistas querem por em prática e que, conseqüentemente, precisam ser formulados como programas determinados. A ciência e a arte das construções progridem a cada dia. Mas um engenheiro, que quer construir ou mesmo demolir, deve fazer seu plano, reunir seus meios de ação e agir como se a ciência e a arte tivessem parado no ponto em que as encontrou no início de seu trabalho. Pode acontecer, felizmente, que ele possa utilizar novas aquisições feitas durante seu trabalho sem renunciar à parte essencial de seu plano. Pode acontecer do mesmo modo que as novas descobertas e os novos meios industriais sejam tais que ele se veja na obrigação de abandonar tudo e recomeçar do zero. Mas ao recomeçar, precisará fazer novo plano, com base no conhecimento e na experiência; não poderá conceber e por-se a executar uma construção amorfa, com materiais não produzidos, a pretexto que amanhã a ciência poderia sugerir melhores formas e a indústria fornecer materiais de melhor composição.

Entendemos por partido anarquista o conjunto daqueles que querem contribuir para realizar a anarquia, e que, por consequência, precisam fixar um objetivo a alcançar e um caminho a percorrer. Deixamos de bom grado às suas elucubrações transcendentais os amadores da verdade absoluta e de progresso contínuo, que, jamais colocando suas ideias à prova, acabam por nada fazer ou descobrir.

A outra objeção é que a organização cria chefes, uma autoridade. Se isto é verdade, se é verdade que os anarquistas são incapazes de se reunirem e de entrarem em acordo entre si sem se submeter a uma autoridade, isto quer dizer que ainda são muito pouco anarquistas. Antes de pensar em estabelecer a anarquia no mundo, devem pensar em se tornar capazes de viver como anarquistas. O remédio não está na organização, mas na consciência perfectível dos membros.

Evidentemente, se numa organização, deixa-se a alguns todo o trabalho e todas as responsabilidades, se nos submetemos ao que fazem alguns indivíduos, sem pôr a mão na massa e procurar fazer melhor, esses “alguns” acabarão, mesmo que não queiram, substituindo a vontade da coletividade pela sua. Se numa organização todos os membros não se interessam em pensar, em querer compreender, em pedir explicações sobre o que não compreendem, em exercer sobre tudo e sobre todos as suas faculdades críticas, deixando a alguns a responsabilidade de pensar por todos, esses “alguns” serão os chefes, as cabeças pensantes e dirigentes.

Todavia, repitamos, o remédio não está na ausência de organização. Ao contrário, nas pequenas como nas grandes sociedades, excetuando a força brutal, a qual não nos diz respeito no caso em questão, a origem e a justificativa da autoridade residem na desorganização social. Quando uma coletividade tem uma necessidade e seus membros não estão espontaneamente organizados para satisfazê-la, surge alguém, uma autoridade que satisfaz esta necessidade servindo-se das forças de todos e dirigindo-as à sua maneira. Se as ruas são pouco seguras e o povo não sabe se defender, surge uma polícia que, por uns poucos serviços que presta, faz com que a sustentem e a paguem, impõe-se a tirania. Se há necessidade de um produto e a coletividade não sabe se entender com os produtores longínquos para que eles enviem esse produto em troca por produtos da região, vem de fora o negociante que se aproveita da necessidade que possuem uns de vender e outros de comprar e impõe os preços que quer a produtores e consumidores.

Como vedes, tudo vem sempre de nós: quanto menos estávamos organizados, mais nos encontrávamos sob a dependência de certos indivíduos. E é normal que tivesse sido assim.

Precisamos estar relacionados com os camaradas das outras localidades, receber e dar notícias, mas não podemos todos nos correspondermos com todos os camaradas. Se estamos organizados, encarregamos alguns camaradas de manter a correspondência por nossa conta; trocamo-os se eles não nos satisfazem, e podemos estar informados sem depender da boa vontade de alguns para obter uma informação. Se, ao contrário, estamos desorganizados, haverá alguém que terá os meios e a vontade de corresponder; ele concentrará em suas mãos todos os contatos, comunicará as notícias como bem quiser, a quem quiser. E se tiver atividade e inteligência suficientes, conseguirá, sem nosso conhecimento, dar ao movimento a direção que quiser, sem que nos reste a nós, a massa do partido, nenhum meio de controle, sem que ninguém tenha o direito de se queixar, visto que este indivíduo age por sua conta, sem mandato de ninguém e sem ter que prestar contas a ninguém de sua conduta.

Precisamos de um jornal. Se estamos organizados, podemos reunir os meios para fundá-lo e fazê-lo viver, encarregar alguns camaradas de redigi-lo e controlar sua direção. Os redatores do jornal lhe darão, sem dúvida, de modo mais ou menos claro, a marca de sua personalidade, mas serão sempre pessoas que teremos escolhido e que poderemos substituir. Se, ao contrário, estamos desorganizados, alguém que tenha suficiente espírito de empreendimento fará o jornal por sua própria conta: encontrará entre nós os correspondentes, os distribuidores, os assinantes, e fará com que sirvamos seus desígnios, sem que saibamos ou queiramos. E nós, como muitas vezes aconteceu, aceitaremos ou apoiaremos este jornal, mesmo que não nos agrade, mesmo que tenhamos a opinião de que é nocivo à Causa, porque seremos incapazes de fazer um que melhor represente nossas idéias.

Desta forma, a organização, longe de criar a autoridade, é o único remédio contra ela e o único meio para que cada um de nós se habitue a tomar parte ativa e consciente no trabalho coletivo, e deixe de ser instrumento passivo nas mãos dos chefes.
Se não fizer nada e houver inação, então, certamente, não haverá nem chefe, nem rebanho; nem comandante, nem comandados, mas, neste caso, a propaganda, o partido, e até mesmo a discussão sobre a organização, cessarão, o que, esperamos, não é o ideal de ninguém…

Contudo, uma organização, diz-se supõe a obrigação de coordenar sua própria ação e a dos outros, portanto, violar a liberdade, suprimir a iniciativa. Parece-nos que o que realmente suprime a liberdade e torna impossível a iniciativa é o isolamento que produz a impotência. A liberdade não é direito abstrato, mas a possibilidade de fazer algo. Isto é verdade para nós como para a sociedade em geral. É na cooperação dos outros que o homem encontra o meio de exercer sua atividade, seu poder de iniciativa.

Evidentemente, organização significa coordenação de forças com um objetivo comum, e obrigação de não promover ações contrárias a este objetivo. Mas quando se trata de organização voluntária, quando aqueles que dela fazem parte têm de fato o mesmo objetivo e são partidários dos mesmos meios, a obrigação recíproca que a todos engaja obtém êxito em proveito de todos. Se alguém renuncia a uma de suas idéias pessoais por consideração à união, isto significa que acha mais vantajoso renunciar a uma idéia, que, por sinal, não poderia realizar sozinho, do que se privar da cooperação dos outros no que acredita ser de maior importância.

Se, em seguida, um indivíduo vê que ninguém, nas organizações existentes, aceita suas idéias e seus métodos naquilo que têm de essencial, e que em nenhuma organização pode desenvolver sua personalidade como deseja, então estará certo em permanecer de fora. Mas, se não quiser permanecer inativo e impotente, deverá procurar outros indivíduos que pensem como ele, e tornar-se iniciador de uma nova organização.

Uma outra objeção, a última que abordaremos, é que, estando organizados, estamos mais expostos à repressão governamental.

Parece-nos, ao contrário, que quanto mais unidos estamos, mais eficazmente nos podemos defender. Na realidade, cada vez que a repressão nos surpreendeu enquanto estávamos desorganizados, colocou-nos em debandada total e aniquilou nosso trabalho precedente. Quando estávamos organizados, ela nos fez mais bem do que mal. Assim também no que concerne ao interesse pessoal dos indivíduos: por exemplo, nas últimas repressões, os isolados foram tanto e talvez mais gravemente atingidos do que os organizados. É o caso, organizados ou não, dos indivíduos que fazem propaganda individual. Para aqueles que nada fazem e ocultam suas convicções, o perigo é certamente mínimo, mas a utilidade que oferecem à Causa também o é.
O único resultado, do ponto de vista da repressão, que se obtém por estar desorganizado é autorizar o governo a nos recusar o direito de associação e tornar possível monstruosos processos por associação delituosa. O governo não agiria dessa forma em relação às pessoas que afirmam de modo altivo e público, o direito e o fato de estarem associados e, se ousasse fazê-lo, isto se voltaria contra ele e em nosso proveito.

De resto, é natural que a organização assuma as formas que as circunstâncias aconselham e impõem. O importante não é tanto a organização formal, mas o espírito de organização. Podem acontecer casos, durante o furor da reação, em que seja útil suspender toda correspondência, cessar todas as reuniões: será sempre um mal, mas se a vontade de estar organizado subsiste, se o espírito de associação permanece vivo, se o período precedente de atividade coordenada multiplicou as relações pessoais, produziu sólidas amizades e criou um real acordo de idéias de conduta entre os camaradas, então o trabalho dos indivíduos, mesmo isolados, participará do objetivo comum. E encontrar-se-á rapidamente o meio de nos reunirmos de novo e repararmos os danos sofridos.

Somos como um exército em guerra e podemos, segundo o terreno e as medidas tomadas pelo inimigo, combater em massa ou em ordem dispersa: o essencial é que nos consideremos sempre membros do mesmo exército, que obedeçamos todos às mesmas idéias diretrizes e que estejamos sempre prontos a nos reunirmos em colunas compactas quando for necessário e quando se puder fazer algo.

Tudo o que dissemos se dirige aos camaradas que são de fato adversários do princípio da organização. Àqueles que combatem a organização, somente porque não querem nela entrar, ou não são aceitos, ou não simpatizam com os indivíduos que dela fazem parte, dizemos: façam com aqueles que estão de acordo com vocês outra organização. É verdade, gostaríamos de poder estar, todos nós, de acordo, e reunir em um único feixe poderoso todas as forças do anarquismo. Mas não acreditamos na solidez das organizações feitas à força de concessões e de restrições, onde não há entre os membros simpatia e concordância real. É melhor estarmos desunidos que mal unidos. Mas gostaríamos que cada um se unisse com seus amigos e que não houvessem forças isoladas, forças perdidas.

Errico Malatesta, primeira edição em Agitazione de Ancone, 11/07/1897

retirado de https://www.marxists.org/portugues/malatesta/1897/07/11.htm