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Uma proposta para os feminismos de classe

Texto de Ineso traduzido e adaptado por Liliana Silva e Clara Orfiso, originalmente publicado em Regeneración Libertaria a 30/04/16


Escrevo este texto enquanto fruto de debates e experiências coletivas em que se constatou que os feminismos de classe da atualidade não se encontram numa situação de ataque à estrutura patriarcal, como se suponha que deveriam estar.  Tal poderá ser consequência de não se planificarem estratégias e linhas de ação, por falta de propostas mais além do que a formação teórica e as concentrações por mulheres assassinadas e outros crimes de violência de género. Nesse sentido aqui vai uma das contribuições das quais nos iremos servir.

Nestes últimos anos têm-se ativado vários grupos feministas que reinvidicam um aborto livre e gratuito e neste momento estamos diante de várias demonstrações que reúnem o movimento, exemplo disso são as mobilizações do 7N*. Porém não há propostas contra a barbárie patriarcal. O conjunto de manifestações resume-se a protestar que não queremos ser mortas e que iremos lutar pelo que faz falta, apesar de não sabermos como.

Em muitos debates que tenho tido com camaradas, tem-se visto como possibilidade ter uma frente feminista forte através da qual conquistaremos os nossos interesses. Partindo de que seria praticamente composta na sua totalidade por mulheres, não acredito que seja produtivo ter uma frente feminista como eixo central da luta feminista. Acredito que a luta feminista deve estar sempre de mão dada com a luta anti-capitalista porque separá-las leva-nos a:

  • Que as mulheres das classes desfavorecidas que queiram lutar pela sua emancipação tenham que ter dupla militância: nas organizações feministas e nas da classe. Por um lado, isto leva ao debilitar de ambas as organizações já que as mulheres trabalhadoras não têm no seu conjunto as condições favoráveis para poder exercer este grau de ativismo, diminuindo assim a nossa potencialidade de construir poder popular. Por outro lado, perpetua-se na militância a dupla jornada laboral das mulheres, tendo os homens privilégio na própria estruturação da luta feminista.
  • Que os homens continuem a liderar as lutas das desfavorecidas, tanto porque as mulheres não poderiam militar nas organizações de classe como militam os homens, e porque nestas organizações não se constrói um espaço em que as mulheres estejam empoderadas e seguras.

Então, propõe-se que desde as organizações políticas libertárias nos encarreguemos de analisar o patriarcado em todos os seus espectros das nossas vidas, inserindo tanto o feminismo como o anti-capitalismo nas lutas coletivas. Ao inserir o feminismo nas organizações de trabalhadoras, todas lutaríamos enquanto classe pelos objetivos do feminismo. Além disso, as mulheres atuariam como vanguarda feminista assim como garantiriam que os espaços de luta são espaços seguros para todas: somos as principais interessadas em acabar com o patriarcado. Se não trabalharmos junto de quem exerce violência sobre nós, estes nunca deixarão de exercê-la. É absurdo separar a luta feminista da anti-capitalista quando uma carece de sentido sem a outra: não acabaremos com o capitalismo sem acabar com o patriarcado e vice-versa. Por isso temos que dotar-nos de mecanismos que façam destas lutas, as lutas das maiorias, e que vão desenvolvendo a construção de um projeto revolucionário que acabe com a estrutura patriarcal e capitalista.

Adicionar o feminismo às lutas coletivas, significa inseri-lo nas frentes de massas em que nos movimentamos. Em cada uma destas frentes o que há em comum é que todas lutaríamos como classe contra o patriarcado e que nestas somos as mulheres, a vanguarda feminista, onde atuaríamos como filtro para todo o trabalho feminista que é feito e seríamos as que garantem que os espaços em que nos movemos são seguros para todas, para assim acabar com o privilégio masculino nas lutas de classe. Neste caso as propostas são para as frentes laboral, comunitária e estudantil:

  • Para a frente laboral toca a combater a forma em que o patriarcado se apresente neste âmbito. Principalmente, o que reconhecemos na forma de desigualdade salarial e segregação do trabalho por géneros. Combater a desigualdade salarial deveria ser desde o sindicalismo do mesmo em que qualquer luta sindical, uma luta que afete todas as afiliadas por simples solidariedade. A segregação por géneros é outra forma de desigualdade salarial, onde os trabalhos de cuidados são destinados a mulheres e recebem uma remuneração muito menor do que os que podem ter trabalhos como técnicos, assim que se podem começar a combater da mesma maneira. Também se trata de buscar mecanismos que garante a participação de todos os géneros nestes trabalhos. Adicionar que no trabalho também se dão condutas de perseguição, discriminação, humilhação… às mulheres por serem mulheres. A partir da parte sindical poder-se-ia lutar para que no trabalho se garantisse a segurança das mulheres, com protocolos etc, e redes de apoio de mulheres dentro destes. Faço um ponto à parte para a prostituição. Desde o feminismo de classe poder-se-ia lutar pela legalização das cooperativas de prostitutas, onde sejam elas quem decide as suas condições de trabalho e não sejam exploradas por homens. **
  • No âmbito estudantil, as principais problemáticas que encontramos são as relações dentro da comunidade educativa, em especial com as estudantes. Aqui destacam-se os distintos assédios recebidos pelas mulheres, tanto na forma de violência estética ou sexual. Para construir empoderamento neste campo podemos começar pela criação de redes de apoio entre as estudantes afetadas, pela demonstração a quem agride de que não estamos sozinhas, e quando necessário, pela confrontação dos agressores. Nos centros educativos também destaca-se a importância de papéis patriarcais. No nosso modelo educativo o contrapoder, deve ser um dos pilares rompedores com tudo isto, desde ir acabando com “o espaço comunicativo da aula é basicamente masculino”, a inviabilização das mulheres no estúdio e a imposição de tarefas segundo o género, fazer ter educação sexual formada no consenso e nas relações sexo-afetivas. 
  • Na frente comunitária, o feminismo pode tratar de tudo o que nos afeta na vida diária, fora do meio estudantil e laboral. Aqui entra tudo o que é do âmbito privado e dos lugares de socialização. Seria a partir daqui que se combateriam reformas como a do aborto. Desde a frente comunitária deve ser básica a garantia de habitação às mulheres que sofrem de violência económica impedindo-as de se emancipar dos seus agressores, o mesmo com as famílias desfavorecidas. Deve garantir-se uma alternativa tanto a mulheres que vivem com os seus violadores como a mulheres que estão na prostituição contra a sua vontade. Para isto ajuda que tenhamos pontos de apoio para mulheres nos nossos centros sociais, enquadrados em instituições populares que garantam o já referido.
    Na frente comunitária é sem dúvida necessário potencializar redes de apoio mútuo entre mulheres, onde ajudar em situação de agressão ou outra possível situação de perigo seja um dos objetivos principais.

Enfrentar estas lutas apenas desde organizações unicamente de mulheres do meu ponto de vista não é mais do que perpetuar a atomização neoliberal. Com este modo de focar a luta feminista passamos de ter uma luta derrotista onde participa uma pequena parte das mulheres a uma luta com objetivos claros que se será cada vez mais numerosa ao conquistar as suas vitórias, na qual lutamos todas e onde nós mulheres somos a vanguarda. Por outro lado, é como integrar a frente feminista em todas as demais frentes, não propagando o isolamento a uma luta unicamente de mulheres.

Resta tudo por construir, tudo por lutar. Estas tentam ser umas das primeiras pinceladas para um feminismo combativo adaptado ao nosso contexto, que construa poder popular desde o feminismo. Com a análise das distintas realidades em que trabalhamos saberemos como lutar contra o patriarcado nas suas distintas manifestações e seremos melhores estrategas que os que lutam pela permanência da estrutura.

 

¡Qué los femicidios serán disturbios!

*Marcha realizada a 7 de Novembro contra a violência de gênero

**Esta posição não é partilhada pelxs integrantes da Apoio Mútuo. Consideramos que a prostituição nunca será isenta de exploração, sendo que ela própria é a mercantilização direta de corpos, especialmente de mulheres. Assim, não apoiamos a legalização da prostituição, até porque em países onde o mesmo aconteceu, verificou-se um aumento de tráfico de pessoas para a prostituição e não houve melhoria das condições de segurança das pessoas prostituídas. A prostituição é inerentemente violenta, classista e misógina.

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