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“Nós temos de estar do lado dos de baixo”

Entrevista realizada por C. Orfiso a Maya Ayam, militante do Coletivo Quebrando Muros no Brasil que tivemos a sorte de conhecer em Portugal e com quem muito aprendemos. Achámos que deixá-la ir embora sem primeiro podermos partilhar um pouco da sua perspetiva com mais gente do nosso contexto seria um ato de egoísmo. Obrigada Maya!

Apoio Mútuo: Oi Maya, tudo bem?

Maya Ayam: Olá, tudo bem, e com você?

AM: Também. Para começar fala-nos um pouco de ti e do que fazes na vida?

MA: Bem, eu vivo em Curitiba, Paraná, e atualmente estudo Ciências Sociais, licenciatura, para dar aulas de Sociologia no ensino secundário, pela Universidade Federal do Paraná, e também tenho dado aula no PIBID que é um projeto da universidade que coloca o estudante de Ciênciais Sociais dando aulas com o professor para aprender a docência… e milito no Quebrando Muros (risos) Ah, e tenho 22 anos e sou natural do interior de São Paulo.

AM: Quando e por que é que te juntaste ao movimento estudantil no Brasil e à tendência Quebrando Muros?

MA: Eu entrei na universidade em 2015, foi quando saí da minha cidade em Itapeva no interior de SP para fazer UFPR em Cutiriba, e assim que entrei em Ciência Sociais e tive contacto com a universidade, tive contacto com o movimento estudantil e com o Coletivo Quebrando Muros e ao passo que fui conhecendo a realidade da universidade e a importância que o movimento estudantil (ME) tem para que as demandas dos estudantes sejam atendidas comecei a perceber a importância de estar militando, de estar atuando dentro do ME. Atuando dentro do ME, participando de protestos, participando inclusivé de uma ocupação à reitoria em 2015, pude ter proximidade com o Quebrando Muros e proximidade com a prática, e perceber que a importância de estar militando organizado dentro do ME para potenciar a sua militância, porque você não estará atuando somente sozinho mas coletivamente, é o que eu acredito, e vendo a atuação do CQM, sempre baseada na ação direta, na horizontalidade, de preservar que as decisões sejam tiradas em assembleia, decididas coletivamente, que todas possam fazer parte do processo, enfim essa postura mais radical e essa postura de base fez com que eu me interessasse pelo CQM  e a partir do 2º semestre de 2015 comecei o meu processo de me aproximar do CQM.

AM: Em Portugal e no resto da Europa, o modelo de organização e atuação através do agrupamento de tendência não é nada comum. Podes contar um pouco mais sobre o que é que é isto da tendência?

MA: A tendência é algo bem comum na América Latina e ela seria o intermédio entre o político e o social; ela não se coloca como organização política e ela não é o movimento social, a ideia é que para você estar dentro do coletivo você não precisa de um afinamento teórico, como se daria na organização política, o necessário é um acordo tático onde os princípios que norteiam o CQM são os princípios com que você precisa de concordar para entrar no CQM, porque nós entendemos que não existe um vácuo de poder, e o movimento estudantil é um movimento social, ainda mais no contexto da universidade brasileira onde através das cotas étnico-raciais e as cotas sociais, a partir do momento em que se implanta essas cotas o cenário das universidades brasileiras mudou: estudantes trabalhadores, estudantes pobres, estudantes não-brancos, que antes não tinham acesso à universidade, hoje estão na universidade, e as suas demandas, as suas urgências, estão latentes. Estas pessoas entraram na universidade mas precisam de se manter, e para que o movimento estudantil seja forte, seja autónomo, para atender as demandas dos de baixo, para atender as demandas dos estudantes, é necessário que estejamos dentro do movimento. É muito comum dentro do movimento estudantil que ele se torne algo burocratizado pela esquerda institucional, por partidos políticos e organizações políticas que estão no movimento estudantil para recrutar membros, para negociar quer seja com a reitoria ou com o governo ao invés de estarem de facto com os estudantes, levantando as suas demandas. Então é necessário que nós nos organizemos como coletivo, como tendência, para estar no movimento estudantil, influenciando o movimento estudantil, imprimindo o que a gente acredita, os nossos princípios, horizontalidade, ação direta, trabalho de base, etc, para que eles estejam no movimento estudantil, porque só assim o movimento pode crescer, pode se tornar combativo, e reinvidicar pela base as suas próprias demandas, então eu acredito que é de extrema necessidade que a gente se organize desta forma.

AM: Princípios como o Federalismo, Horizontalidade, que acabaste de referir, e Democracia Direta, são base para a atuação do CQM no movimento estudantil. Como é que estes se refletem na atuação numa entidade de base estudantil que na maioria das vezes se encontra burocratizada e aparelhada, como os Diretórios Académicos?

MA: Bom, nós estamos no dia a dia do movimento estudantil. No Brasil nós temos os Diretórios Académicos e os Centros Académicos, que nós consideramos que são entidades de base porque elas são organizadas por cursos. É nosso dever estar nestas instâncias de base, é a partir delas que a gente pode ir organizando no primeiro momento assembleias por curso, e depois organizando assembleias da universidade, já que cada curso tem a sua pauta e há pautas que são comuns a todos os estudantes e isso deliberamos em Assembleia Geral. Para garantir que o movimento estudantil não se torne burocrático, para que não fique nas mãos de um setor da esquerda que nada está do nosso lado, que não está preocupado com as nossas demandas, mas com as demandas das direções dos partidos, acredito que seja necessário a nossa atuação fomentando a auto-organização dos estudantes, fomentando assembleias onde todos possam participar, seja de curso, seja geral, para que as nossas demandas sejam tiradas pelas assembleias, pelos cursos. Os CAs costumam fazer assembleias dos seus cursos, por exemplo para deliberar uma greve, o primeiro passo que nós tentamos garantir é que os CAs discutam o que é a greve, discutam as pautas da greve, as pautas do seu curso, e uma vez que a assembleia delibera a greve do seu curso, esse CA vai levar a deliberação numa assembleia geral e é na AG que a gente vai discutir as reinvidicações da nossa greve geral. Uma outra questão é quando nós temos pautas e a gente sabe que se for sentar na reitoria para negociar sem uma pressão dos estudantes, sem uma pressão da base, nós não seremos ouvidos, nossas demandas não serão atendidas: é necessário que estejamos em protesto, que estejamos nos organizando em ato, que estejamos pressionando a reitoria, se for necessário com ação mais radicalizada, ocupando os nossos locais de inserção, garantido que o movimento cresça dessa forma, que os estudantes entendam que é nós por nós, que os estudantes entendam que é só nós pela base, os de baixo que conseguem se organizar para levantar nossas demandas, nossas urgências.

AM: Enquanto militante do CQM e reconhecendo a importância da presença de uma tendência no movimento estudantil, gostaríamos que nos falasses de momentos em que sentiste que a existência da organização em que militas tenha sido determinante para o desenvolvimento do movimento.

MA: Como falei antes, observei a atuação do CQM antes de ter entrado, assim que cheguei na universidade, e vejo a importância de estarmos ali trazendo essa perspetiva de trabalho de base, essa perspetiva de democracia direta, trazendo essa perspetiva libertária dentro do movimento estudantil; é fomentando dentro dos nossos locais de inserção a importância de nós lutarmos por nós mesmos que conseguimos por exemplo fomentar ocupações. No Brasil estamos passando por graves ataques constantes aos nossos direitos, e no final do ano passado, estava em votação a reforma do ensino secundarista e a PEC-55 que congela os investimentos em saúde e educação por 20 anos, medidas do governo federal onde houve resistência por todo o Brasil, principalmente dos estudantes universitários e secundaristas. A nossa atuação dentro do movimento estudantil, especificamente no Paraná, foi importante para fomentar ações mais radicalizadas, para que os estudantes se estivessem organizando nos protestos, organizando em ações para dar visibilidade à nossa pauta e para nós resistirmos. Também foi muito importante o apoio às ocupações secundaristas para garantir a resistência dos estudantes face aos ataques.

AM: Quais são as principais dificuldades do CQM na construção de um movimento estudantil autónomo e combativo que identificas?

MA: Acredito que uma das principais dificuldades é que estando dentro do movimento estudantil, existem diferentes organizações diferentes partidos políticos, e esses partidos políticos tendem a trazer a sua perspetiva, burocratizada, que não compreende as reais demandas dos estudantes, está procurando os seus próprios interesses. Às vezes a gente está num processo de greve dos estudantes e existe sempre um movimento desses setores da esquerda institucional de parar, de atravancar o processo de greve, para que saiamos com derrota dentro da mobilização dos estudantes. Porém, é possível vencer estas dificuldades, porque os estudantes pouco têm proximidade com essa esquerda que muitas das vezes não está do nosso lado. Os estudantes podem não estar organizados em coletivos, podem estar atuando de maneira independente, mas eles estão diariamente na construção do movimento estudantil, são as suas demandas, as suas necessidades, é a sua permanência na universidade que está em jogo. Os estudantes, por mais que não estejam em alguma organização ou em algum coletivo, percebem a atuação e as divergências nas atuações, e aí nós podemos ser como uma referência dentro do movimento, mostrando que é possível outro caminho, que é possível uma organização dos estudantes de maneira autónoma. Nós não precisamos de disputar uma entidade burocrática de representação estudantil, nós podemos organizarmo-nos nós mesmas pelas nossas reinvidicações. Então, eu acredito que as dificuldades existem, as grandes entidades burocráticas estão aí, há muito tempo, mas é possível vencer através da luta constante, demonstrando a nossa prática através da luta, e através da nossa organização.

AM: Maya, para além de seres estudante, também és mulher. O que é que isso quer dizer no movimento estudantil brasileiro e no CQM?

MA: Sou mulher e é de extrema necessidade que a gente debata género, e debata as diferentes opressões porque a esquerda costuma não se importar, secundariza as questões e opressões, seja de género, raça, sexualidade, étnica, enfim, não se pode secundarizar, não existe hierarquia nesse debate. E como mulher é importante que esse debate aconteça porque as nossas demandas são diferentes das demandas dos homens. Por exemplo, existem mulheres que são estudantes-mães que muitas das vezes têm de sair da universidade porque não têm auxílio da universidade, não têm um auxílio-maternidade, não têm um suporte. É necessário que pensemos na estudante como mulher, e como mãe neste caso, para que ela continue na universidade. A nossa principal questão é que uma vez que a estudante entrou na universidade ela permaneça, e então temos de ir sempre pressionando para que as nossas demandas como mulheres sejam atendidas. É importante fortalecer o movimento feminista, eu acredito no movimento feminista pelo feminismo interseccional classista, que é também um dos príncipios do CQM, entendendo que existem diferentes mulheres, não somos apenas um tipo de mulher, e todas as mulheres precisam de ser respeitadas e todas as nossas demandas precisam de ser atendidas como mulheres. É de grande importância dentro do movimento estudantil que nós façamos valer a nossa voz, porque nós somos agredidas, somos violentadas todos os dias, a nossa voz é calada, e se a gente se organizar, de maneira autónoma e de maneira combativa também as nossas demandas serão atendidas.

AM: Para finalizar, enquanto visitaste Lisboa e Coimbra, sabemos que tiveste muitas conversas em que partilhaste a tua experiência de militância e conheceste um pouco mais de algumas das lutas que se travam neste momento em Portugal e das formas como nos temos organizado. Como vês a potencialidade de desenvolver o movimento estudantil aqui?

MA: Acredito que é bem possível para agora o movimento estudantil começar a tomar uma forma, começar a ganhar força. Vendo a realidade das universidades portuguesas, que está diferente das universidades brasileiras, existem demandas de extrema urgência que é muito possível que os estudantes através da organização reinvindicando essas demandas, tomem uma força. Por exemplo, a propina, a universidade ser pública porém não gratuita, é a exclusão no acesso à universidade que o estudante se depara, o estudante que não tem capacidade de pagar essa propina, que tem aumentado, e nós não podemos aceitar, a exclusão dos estudantes nós não podemos aceitar. Vi também que em Coimbra houve uma mobilização contra a Fundação, que entendo como um processo de privatização das universidades, e acredito que a resistência precisa continuar contra a Fundação, contra o aumento da propina, contra a propina. Há pautas muito urgentes e que são evidentes, é importante que se denuncie essas medidas, que se faça espaço para debater essas medidas com os estudantes, porque muitas das vezes o estudante, não que ele aceite pela sua passividade, mas muitas das vezes aceita porque não tem a perspetiva que é possível transformar isso, que uma vez que foi aprovado não é possível voltar atrás. Porém é possível; com uma mobilização dos estudantes de maneira forte, de maneira direta, é possível que a gente transforme esse cenário. O que eu vi nas universidades portuguesas é a mesma cara, as mesmas pessoas; é o mesmo perfil de estudante. Isso não pode acontecer, isso é uma universidade elitista, isso é uma universidade excludente. As universidades brasileiras passaram por uma mudança através da política de cotas, por uma mobilização. Acredito que só a luta muda a vida, que só a mobilização pode transformar um cenário, e penso que com essas pautas é possível garantir uma mobilização.

É interessante, nós que temos uma perspetiva diferente da esquerda institucional, uma perspetiva diferente de algo de cima para baixo, de algo hierárquico, de pessoas que pensam e outras executam, é importante que estejamos no movimento de maneira organizada, de maneira coletiva também, porque quando a gente age individualmente não é tão efetivo como quando a gente age coletivamente; e nós que que somos estudantes, nós estamos na universidade, a universidade é nossa, temos de lutar pela nossa permanência e pela entrada de outros estudantes como nós. As pautas existem, o movimento estudantil em Portugal pode estar inerte, pode não estar acontecendo, porém existem demandas, existem estudantes que não estão entrando, existem estudantes que estão saindo porque não conseguem se manter nela. Então é esse momento, é essa forma, é denunciando isso, é organizando protestos, organizando debates, trazendo a perspetiva de mudar isso através da organização dos estudantes que a gente consegue começar um movimento estudantil.  Esse movimento ele quebra muros, ele é para além do movimento estudantil, está atuando contra medidas sejam do governo sejam medidas maiores. Está em apoio, solidariedade, não só com outros estudantes, mas também, com os trabalhadores, com os campesinos, com os imigrantes, com as mulheres, com as pessoas negras, com os LGBT.

Nós temos de estar do lado dos de baixo, e bem, é dessa forma, rompendo os muros, organizando o movimento estudantil e estando lado a lado dos movimentos sociais.

(E é isso.)

AM: Muito obrigada Maya, arriba las que luchan!

AM e MA: SE ESCUCHA, SE ESCUCHA, ARRIBA LAS QUE LUCHAN!

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Análise das diferentes visões do sistema universitário a partir de uma perspetiva antropológica

Tradução por Liliana Silva de “Análisis de la plurivisión del sistema universitario, desde una perspectiva antropológica“, de Nuria E., originalmente em Regeneración Libertaria.

Os motivos que levaram à realização deste artigo de opinião, basearam-se na observação de um contexto universitário, do qual participo enquanto estudante, mas que parece ser transversal a diferentes universidades de Madrid. Esta observação foi dada através de encontros e conversas informais com universitárias de outras áreas formativas e outras universidades. Com o tempo e a repetição deste tipo de encontros e conversas, pude constatar um padrão que se reproduzia sistematicamente nas diferentes experiências dos estudantes. Por ele, este artigo é apresentado, não tanto como crítica a um sistema cujo mau funcionamento é estrutural, mas sim como chamada de atenção sobre uma realidade que pode ser transformada, se se aproveitar a oportunidade de estabelecer relações de diálogos e performatividade entre os diferentes estratos universitários, principalmente entre alunos e professores.

Quando falamos das diferentes visões do sistema universitário, estamos a referir-nos às diferentes formas em que este é entendido, centrando-nos especificamente nas diferenças sociais e de geração.

Desde sempre, a Universidade como entidade, tem sido reconhecida coletivamente como um espaço de formação intelectual e reconhecimento social. Quando os filhos de operários começaram a conseguir aceder-lhe, aguçou-se ainda mais esta perspetiva, diferenciando-os como “operários de primeira categoria.” No entanto, também serviu para que a universidade fosse preenchida com conteúdo social e político, para advogar uma sociedade mais justa.

A geração dos nossos pais e professoras, cresceu com esta perspetiva, onde pouco a pouco a universidade foi adquirindo uma matriz ideológica de base marxista e revolucionária. Uma universidade, onde as diferenças de classe continuavam evidentes, mas onde se lutava por erradicar e por dotar de ferramentas um povo que saía de uma ditadura de mais de 40 anos. Os operários deixaram de estar presos à mão de obra e trabalhos de pouca categoria e começaram a ascender socialmente. Esta realidade, foi adquirindo peso na ideologia de superação operária, fazendo com que aqueles que haviam acedido a estudos superiores e, especialmente, aqueles que não haviam conseguido cursá-los, pretendessem garantir um futuro económico e educativo superior às gerações futuras.

Consequentemente, criou-se um imaginário coletivo que idealiza a universidade como gérmen das lutas sociais, como última etapa para uma vida de êxito social e económico, como garantia perante todas as dificuldades futuras. Quantas de nós não crescemos com o slogan “para seres alguém na vida, tens de ir para a universidade”, como se os milhões de pessoas que não terão podido ou pretendido, estudar na universidade, se tivessem anulado a si mesmas pelo mero feito de continuarem a ser operárias. Como se uma filha com título universitário valesse simbolicamente mais do que os seus pais, ou do que o esforço dos mesmos para garantir os seus privilégios. Quantas estudantes não se têm visto arrastadas para a universidade, sem terem uma ideia clara e orientada, do que é que queriam conseguir nas suas vidas, só porque é “o que esperam delas”.

Contudo encontramo-nos aqui, a seguir estudos superiores. A geração mais formada da nossa história. A que tem o futuro mais imprevísivel, a que menos se mobiliza, a que mais passividade acumula e a que mais murmura nos corredores o seu descontentamento formativo, sem saber focalizá-lo. De onde terá vindo a promessa de um futuro profissional estável ? Porque é que a nossa graduação nos faz mais “alguém na vida” mesmo trabalhando atrás da caixa registadora de um centro comercial, do que ao resto dos colegas sem graduação? Onde foi parar o gérmen das lutas trabalhadoras numa universidade onde, se trabalhas enquanto estudas, te penalizam por não assistires às aulas?

Não quero parecer derrotista, apenas evidenciar as realidades que cruzam os corredores de qualquer instituição de ensino superior. As dúvidas que nos colocamos enquanto jovens estudantes, sem um futuro definido e que nos continuam a vender o conto do capitalismo tradicional, quando a nova realidade supera e destrói qualquer dessas percepções neoliberais. Evidenciar a situação de queda em que sentimos que se encontram as nossas universidades, e a monótona resignação com que a cada dia acudimos uma aula onde copiamos passivamente os mesmos diapositivos que o docente da cadeira nos quer ler, onde a crítica e o livre pensamento são silenciados com “é que isso não é assim e ponto”*, ou professores que te incentivam a dares a tua opinião, especialmente se é contrária à sua, para te humilharem em público de maneira nada pedagógica.

Naturalmente, estes casos não são a totalidade, também há professores que no seu idealismo, tentam vender-te uma imagem que se desarma na sua própria bondade, professores que te contagiam com a sua paixão ou aqueles que, sabendo que este processo é puramente superficial, tentam facilitar-te com novas ideias e propostas. Alguns, embora sejam poucos os casos, apoiam ideológica e posicionalmente algumas das propostas alternativas, fomentadas desde o gérmen universitário. Algumas tentam romper e desconstruir o elitismo intrínseco à formação universitária, e há também os que ainda resistem a implementar nas suas metodologias docentes, as restrições abusivas dos novos planos de estudos, facilitando a comunicação, o trabalho e a aprendizagem coletiva.

Não creio que esta situação, se deva só a um problema de gerações ou de elitismo académico, mas sim a um problema de perda de contacto com a realidade. Muitos professores dizem entender a situação dos estudantes menos privilegiados, se bem que nunca estiveram na mesma situação ou quem sabe já se tenham esquecido e guardam uma memória difusa e romântica a esse respeito. A sensação que permanece na comunidade estudantil é a de não ter acesso real aos seus professores, a de não aprender, a de perder a ilusão daquilo que, num imaginário hegemónico e herdado, tinham idealizado.

Não é só um problema na relação entre docentes e alunas, cuja comunicação não rompe hierarquias formativas e é restrita a uma aula; mas algo que vai mais além, que afeta a estrutura global do sistema educativo, que permite jovens cada vez mais preparados segundo dizem, mas pior formados segundo parece. Um problema que, embora não seja fácil de resolver, é necessário, e passa por uma renovação absoluta e desde a base, do sistema educativo, social e legal.

Nuria E.

Notas da tradução:

*ou com “é uma questão interessante mas não nos podemos estender porque temos de cumprir o programa”, como é também frequente ouvir nas universidades portuguesas.

O Papel das Graduadas

(Nota inicial: o artigo abaixo está contextualizado nas lutas estudantis do estado espanhol, porém a ideia geral também se aplica a Portugal)

Durante os últimos anos tens andado a estudar muito, a stressar nas épocas de exames, a pagar as matrículas uma, duas, três vezes ou mais… e também te inscreveste no instituto de línguas para sacar aquele nível de Inglês, talvez pensas que o tempo que dedicaste à militância no movimento estudantil podias tê-lo dedicado aos estudos e quem sabe assim não tivesses repetido esta ou aquela cadeira… ou até evitado aquele curso desastroso em que quase não passavas a nenhuma.

É bem provável que chegues a pensar isto, ou algo parecido, se a tua situação for a de estar a acabar a universidade e durante os teus anos na mesma havias estado no movimento estudantil. Isto é assim porque nos últimos anos, poucos ou nenhuns são os casos em que as organizações estudantis ou o movimento estudantil onde existe, tenham tido pretensões reais de transformar a sociedade, de melhorar-la.

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