O Paradigma da Revolução Espanhola e o Movimento Anarco-Sindicalista

Dia 19 de Julho de 2017, fazem 81 anos desde o começo da resistência popular contra o golpe de estado fascista em Espanha, o começo daquele que é provavelmente o processo revolucionário que mais marcou o ideário do movimento anarco-sindicalista internacional até aos dias de hoje. Falar da Revolução Espanhola é falar de uma revolução que apesar de tudo o que nos demonstrou ou reafirmou ser possível, foi derrotada. O movimento anarco-sindicalista, na sua generalidade, tem explicado esta derrota simplesmente como derivada da traição do PSUC (estalinista) e do virar de costas das democracias burguesas europeias. Tem faltado um reconhecimento e uma autocrítica sobre como o modelo de atuação anarco-sindicalista também pode ter tido a sua parte da responsabilidade nesta derrota; pouco se tem debruçado sobre a traição dos dirigentes da CNT à classe trabalhadora e a forma como o movimento não teve capacidade de resistir à degeneração levada a cabo pelos mesmos.

Entre a organização anarco-sindicalista e o dualismo organizacional sintetista

Um dos princípios distintivos do anarco-sindicalismo clássico é que a organização sindical é também organização política, estando a sua prática e luta direta e assumidamente relacionada com o seu objetivo final (comunismo anarquista), tal não impede que trabalhadores que não se considerem anarquistas se juntem à organização (apesar de acabarem por ser automaticamente considerados por pertencerem à organização), mas faz com que a organização também seja o espaço de debate ideológico e de construção da proposta política, sendo portanto a única organização necessária. A oposição a esta perspetiva não é nova, nem fora do movimento anarco-sindicalista nem dentro das organizações anarco-sindicalistas. Já desde o ínicio da CNT existiam correntes internas que defendiam a necessidade de uma organização política anarquista, que agiria dentro da CNT contra as tendências reformistas, separando portanto o movimento social da organização política.

Em 1927 esta divergência resulta na fundação da FAI, com agrupações tanto do território espanhol como do território português. Apesar desta tentativa de satisfazer a necessidade de uma organização política anarquista que promovesse a linha revolucionária, a FAI demonstra-se ineficaz a longo prazo nesta missão ao não passar de uma rede de grupos de afinidade com entendimentos distintos, sem um programa político e uma linha tática em comum. Em 1937 adota um modelo de federação de grupos locais e de bairro,

“considerablemente más abierta a las adhesiones que los grupos de afinidad, pero en la que el poder de decisión de los comités se incrementaba. Luego, la organización anarquista, la “específica” como le dicen los españoles, se transformaba en un partido en el sentido moderno, apuntando a convertirse en “organización específica de masas”. Sin lugar a dudas, se puede considerar que los grupos de afinidad ya no correspondían al período que se abrió en Julio de 1936, pero por otra parte, ¿cómo no ver la pobreza y confusión de su base teórica, que consistía en una declaración de principios de tan sólo unas cuantas líneas?”
(Fontenis, El Mensaje Revolucionario de “Los Amigos de Durruti”)

O dirigismo, o “anarquismo de governo” e os Amigos de Durruti

No Congresso de Saragonça de 1936, a vontade dos membros da CNT em caso de Revolução tomou moldes sem dúvida anti-capitalistas e anti-estatistas: tomada do poder económico, abolição do exército permanente, armamento do povo e controlo das armas sob as Comunas, importância crucial da propaganda destinada ao proletariado de outros países. Ao abordar-se a aliança inevitável com a UGT, foi especificado que “todo o tipo de colaboração, política ou parlamentária” com o regime burguês deveria ser recusada. Sabemos que não foi isto que se sucedeu a seguir ao levantamento revolucionário de 19 de Julho: os dirigentes da CNT aceitaram colaborar tanto com o poder político como com outras organizações burguesas, sem qualquer necessidade dada a força social que tinham. Pior é que a 23 de Julho a CNT e a FAI reúnem em plenária regional e esta linha política é ratificada.

A falta de discussão sobre o poder político, sobre a proposta comunista libertária, a falta de um programa político claro, pensado e unitário, geraram o famoso falso dilema entre “ditadura anarquista” e democracia: mesmo sendo a maior força social da classe trabalhadora, tendo capacidade e legitimidade para acabar com o aparato estatal, não o podiam fazer, dado que assim estariam a impor a sua vontade de não ter Estado à minoria que o queria. Criaram assim o fenómeno inédito do “anarquismo de governo”, participando num governo de colaboração com a burguesia.

A partir deste momento a direção da CNT foi se afastando cada vez mais das suas bases, que na sua maioria se foram resignando a aceitar a linha dada. A confusão teórica não permitiu outra reação se não a do confiar e esperar o desenrolar. O purismo ácrata não permitiu uma oposição que passasse duma conversa vaga sobre os ideais anarquistas e que começasse a tratar de analisar os problemas de fundo. A dispersão, a falta de coesão e de coordenação não permitiram a consolidação de uma oposição de peso.

Quando o grupo Os Amigos de Durruti aparece em Maio de 1937, a política de vencer a guerra e só depois fazer a revolução está no seu auge com o governo a desarmar e prender militantes da CNT. Na tentativa de tomada da Central Telefónica pelas forças estatais, do PSUC e dos separatistas catalães a 2 de Maio, as forças populares da CNT-FAI, das Juventudes Libertárias, do POUM, e as patrulhas populares insurgiram-se e levantaram as barricadas pela recuperação do controlo popular da cidade. O surgimento d’Os Amigos de Durruti, a sua análise e as suas exigências infelizmente chegaram tarde para conseguir salvar a revolução, aproveitemos porém a sua experiência para tratarmos de prevenir agora o nosso futuro.

“Las revoluciones sin una teoría no siguen adelante. “Los Amigos de Durruti” hemos trazado nuestro pensamiento que puede ser objeto de los retoques propios de las grandes conmociones sociales, pero que radica en dos puntos esenciales que no pueden eludirse. Un programa y fusiles.
Mantengamos el criterio apuntado en los Sindicatos, en los lugares de trabajo. Hagamos prevalecer nuestros propósitos. Sin nerviosismos estériles, sin precipitaciones contraproducentes, preparemos a la clase trabajadora para que sepa escalar de una vez el lugar que le corresponde y que, por falta de una teoría revolucionaria, se ha perdido lastimosamente.”

Os sintomas da ausência de organização política anarquista na história e atualidade da IWA-AIT anarco-sindicalista

Ainda não fez um ano, a CNT, a FAU e a USI participaram numa conferência em Barakaldo para a “refundação da AIT”. Esta não é a primeira vez que há uma cisão dentro da Internacional. Em 1958, a SAC (ex-secção sueca) abandonou a Internacional por querer participar em eleições municipais e pela integração com o estado para a distribuição de subsídios de desemprego; em 1979, houve uma cisão na CNT, com a atual CGT a querer poder participar em eleições sindicais, ter pessoas a tempo inteiro, e poder participar em esquemas estatais.

A SAC e a CGT estavam claramente a infringir princípios-básicos do anarco-sindicalismo, porém mantiveram as cores e a identificação com a corrente. Vários militantes da IWA-AIT não as consideram organizações anarco-sindicalistas, e com razão (não que isso seja necessariamente mau, para um anarco-sindicalista certamente será). Uma organização que abandona o anarco-sindicalismo, mas continua a apresentar-se como anarquista, é apenas um empecilho para a construção de uma organização política anarquista séria que promova os métodos revolucionários que irão ajudar na construção de poder popular, combatendo ao mesmo tempo o reformismo nos movimentos sociais*. A criação desta organização é essencial para o amadurecimento do movimento. Ironicamente, o método rejeitado pelo anarco-sindicalismo clássico seria o único método capaz de prevenir que sindicatos derivassem para outros príncipios que não os que este considera mais apropriados.

No caso da CNT atual, os números para constituir núcleo sindicais que apenas favorecem a dicotomia rural vs urbano, a promiscuidade com partidos (quando núcleos chegam a partilhar sede com o Podemos sem necessidade disso), a falta de participação dos militantes nas decisões internas (sindicatos com 180 pessoas e presença de apenas 12 em assembleia, caminhando para um modelo de sindicato de serviços), ou ainda os escândalos de desvios de fundos monetários por parte de secretários, deveriam ser um alarme claro para todos e todas nós. A organização política anarquista demonstra-se mais uma vez amplamente necessária para a manutenção de um sindicalismo revolucionário sério, onde o oportunismo de indivíduos e grupos políticos aparelhistas não se possa aproveitar do património histórico e protagonismo das organizações e movimentos sociais da classe trabalhadora.

Os novos caminhos que surgem

Com a Solidarity Federation (secção do Reino Unido da IWA-AIT) e a Workers’ Solidarity Alliance (Amigos da IWA-AIT dos EUA) verifica-se uma mudança de perspetiva do anarco-sindicalismo clássico para uma perspetiva que poderíamos chamar de anarco-sindicalismo do séc. XXI. O anarco-sindicalismo do séc. XXI destaca-se por manter a defesa dos príncipios-base do anarco-sindicalismo porém reconhecendo a sua situação de minoria no movimento laboral e portanto tomando uma atuação de minoria ativa.

Uma organização de minoria ativa anarco-sindicalista, de acordo com esta perspetiva, tem como objetivo desenvolver sindicatos autónomos e combativos, não necessariamente sindicatos anarco-sindicalistas da sua organização. Se mais tarde for vontade destes sindicatos juntarem-se a uma federação anarco-sindicalista por partilharem da mesma visão do e para o mundo, são bem-vindos. Nos locais de trabalho já sindicalizados, o papel do militante desta organização poderá ser o de puxar as decisões do sindicato de volta para as bases, se houver espaço para isso, e promover a ação direta e uma postura combativa. Rejeita portanto o modelo da confederação sindical monolítica e concebe uma revolução social que terá com certeza mais organizações que uma única federação a tomar parte ativa na mesma. Assim, mais do que tentar ser uma federação sindical, prioritiza ser uma rede de militantes que, com o seu trabalho de base, consiga influenciar positiva e construtivamente os movimentos sociais.

Este dualismo organizacional lembra o plataformismo e o especifismo, começando também a aproximar ou reaproximar atuações de correntes internas do anarquismo organizado. Com alguma ambiguidade, começa a tentar resolver o paradigma da Revolução Espanhola e a atualizar a militância do anarco-sindicalista para uma realidade onde a sua corrente já não é hegemónica.

 

Clara Orfiso

 


Notas:

*promove também um clima de oportunismo, desconfiança, e competição desnecessária para quem continua a agir de acordo com os princípios-básicos


Bibliografia:

Fontenis, George, El Mensaje Revolucionario de “Los Amigos de Durruti”, 1983

BlackSpartakLos modelos de organización de un movimiento revolucionario. La relación entre una minoría activa y un movimiento social

BlackSpartakLos problemas del sectarismo y las alianzas. El caso de la relación CNT-UGT en 1934-36

Borja Libertario, CNT, FAI y II República: la lucha ideológica dentro del movimiento anarquista

Collective Action, Specifism explained: the social and political level, organisational dualism and the anarchist organisation

Solfed, Fighting for Ourselves

Workers’ Solidarity Alliance, Some Frequently Asked Questions

CNT-AIT Levante, Declaracion de Intenciones

Ray, Rob, Overview: Internacional Workers’ Association

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