Porque é que Nos Opomos à Polícia

Com os recentes acontecimentos no G20 em Hamburgo e a acusação pelo Ministério Público de 18 agentes da PSP por racismo, ódio, tortura, e sequestro, os temas da polícia, violência policial, e legitimidade de autodefesa têm estado em cima da mesa nestes últimos dias, parecendo-me pertinente traduzir o texto “Porque é que Nos Opomos à Polícia”, da autoria do coletivo CrimethInc., que descorrendo sobre a legitimidade da nossa oposição às forças da Ordem, incentiva a tomada de tal lado da luta e a demissão dos agentes policiais.


No inconsciente coletivo da nossa sociedade, a polícia é o bastião final da realidade, a força que assegura que as coisas continuam como estão; combatê-la e ganhar, mesmo que temporariamente, é mostrar que essa realidade é negociável.

O criticismo da oposição à polícia geralmente varia por entre cinco categorias. O primeiro e mais comum argumento é que a polícia, enquanto colegas trabalhadores, também são membros explorados do proletariado, e que deviam portanto ser nossos aliados. Infelizmente, há um fosso vasto entre “devem” e “são”. A polícia existe para forçar a vontade dos poderosos; qualquer pessoa que nunca tenha tido uma má experiência com eles é muito provavelmente ou privilegiada ou submissa. Os agentes da polícia de hoje em dia, pelo menos na América do Norte, sabem exactamente para onde estão a entrar ao juntarem-se às forças policiais;  pessoas de uniforme não tiram apenas gatos de cima de árvores neste país. Sim, muitos aceitam o emprego devido ao que sentem ser necessidade económica, mas precisar de um salário não é desculpa para obedecer a ordens de despejo de famílias, abusar de jovens de cor, ou lançar gás-pimenta a manifestantes; aqueles a quem as consciências podem ser compradas são inimigos de toda a gente, não potenciais aliados.

Este argumento poderia ser mais persuasivo se fosse enraizado em termos estratégicos, em vez de abstracções marxistas: por exemplo, “Toda a revolução sucede no momento em que as forças armadas recusam-se a fazer guerra com os seus semelhantes; sendo assim deveríamos forcar-nos em seduzir a polícia para o nosso lado das barricadas.” Mas novamente, a polícia não são meros trabalhadores; eles são aqueles que mais deliberadamente escolheram basear os seus meios de subsistência e sistemas de valores na ordem prevalecente e, portanto, são os menos propensos a simpatizar com aqueles que lutam contra a hierarquia. Sendo assim, faz sentido concentrarmo-nos em opormo-nos à polícia enquanto tal, não em procurar solidariedade com eles. Enquanto servirem os seus mestres, não podem ser nossos aliados; ao criticarmos publicamente a polícia enquanto instituição, encorajamos os agentes policiais individuais a procurar outro emprego, para que possamos encontrar uma causa em comum com eles.

O segundo argumento é que a polícia pode ganhar qualquer confrontação, portanto não deveríamos investir-nos em estratégias que envolvem confrontá-los [1]. Pode até parecer que, com todas as suas armas e armaduras e equipamento, a polícia é invencível, mas isto não passa de uma ilusão.  Eles estão limitados por todos os tipos de constrangimentos invisíveis—burocracia, opinião pública, a sua própria necessidade de evitar um escalamento inconveniente. É por isto que uma multidão heterogénea armada apenas com os cartuchos de gás lacrimogéneo que lhes foram disparados conseguem aguentar uma força mais equipada, organizada, e maior; a competição entre a agitação social e o poderio militar não é jogada de acordo com as regras do engajamento militar.

Aqueles que estudaram a polícia, que conseguem prever para que estão preparados e o que podem ou não fazer, conseguem usualmente superá-los e ultrapassar as suas manobras. Vitórias tão pequenas podem ser inspiradoras para quem está sob a roda da repressão policial, tal como instrumentais para conseguir objectivos concretos. No inconsciente coletivo da nossa sociedade, a polícia é o bastião final da realidade, a força que assegura que as coisas continuam como estão; combatê-la e ganhar, mesmo que temporariamente, é mostrar que essa realidade é negociável.

O terceiro argumento é que a polícia é uma mera distração do real inimigo, não merecedora da nossa revolta ou atenção. Infelizmente, o poder estatal não são só os políticos; estes seriam impotentes sem os milhões que executam o seu jogo. Quando contestamos o seu controle, também estamos a contestar a submissão dos seus bajuladores, e temos a certeza que mais tarde ou mais cedo teremos de enfrentar aqueles que dos últimos insistirem em obedecer. Dito isto, é verdade que a polícia não é mais integral à hierarquia que as dinâmicas opressivas nas nossas próprias comunidades; é simplesmente a manifestação externa, numa escala mais larga, do mesmo fenómeno. Se quisermos contestar a hierarquia em todo o lado, em vez de nos especializarmos em combater apenas certas formas desta deixando outras sem oposição, temos de estar preparadas para ir avante com a luta, tanto nas ruas como nos nossos quartos; não podemos esperar ganhar apenas numa frente sem combater na outra. Não devíamos fetichizar confrontações com inimigos armados, não devíamos esquecer o desequilíbrio de poder nas nossas próprias fileiras— mas também não devemos contentarmo-nos apenas com gerenciar os detalhes da nossa própria opressão de forma não-hierárquica [2].

O quarto e mais desprezável argumento é que precisamos da polícia. De acordo com esta linha de pensamento, mesmo que aspiremos viver numa sociedade sem polícia num futuro distante, precisamos dela hoje em dia, pois as pessoas não estão preparadas para viver umas com as outras em paz sem imposição armada. Como se as desigualdades sociais e a submissão mantida pela violência policial fossem paz! Os opositores da polícia não necessitam sequer de responder a esta acusação, porém. Não é como se uma sociedade livre de polícia fosse imediatamente surgir da noite para o dia, para o bem e para o mal, só porque alguém pinta “Foda-se a Polícia” numa parede—que fosse assim tão fácil! A luta prolongada que vai ser precisa para libertar as nossas comunidades da repressão policial irá provavelmente continuar enquanto aprendemos a coexistir pacificamente; definitivamente, nenhuma comunidade incapaz de resolver os seus próprios conflitos pode esperar triunfar contra uma força ocupante mais poderosa. Enquanto isso, sentimentos anti-polícia deviam ser lidos como objeções a uma das formas mais avançadas e óbvias de conflito entre seres humanos, não argumentos de que sem a polícia não haveria qualquer conflito; e aqueles que argumentam que a polícia às vezes faz coisas boas carregam o fardo de provar que essas mesmas coisas boas não poderiam ser realizadas pelo menos por outros meios.

A objeção final e mais subtil da resistência militante contra a opressão policial é a crítica pacifista da própria violência. De acordo com esta perspetiva, a violência é inerentemente uma forma de dominação e, portanto inconsistente com a oposição à dominação; aqueles que se envolvem em violência jogam o mesmo jogo que os seus opressores, perdendo assim desde o início. Outro consideram que a violência impõe uma dinâmica de poder desigual em certos casos, enquanto que em outros casos a contesta, isto é, existe legitimidade de autodefesa. Para aqueles que o seu sistema de valores ainda descende da Cristianidade, manter as mãos limpas de comportamento imoral é a prioridade mais alta, a todo o custo; para os restantes de nós, que desejamos ser livres de proibições supersticiosas, a coisa mais importante é a que irá funcionar, em dado contexto, para fazer do mundo um lugar melhor. Às vezes—para nomear um exemplo óbvio, como a luta contra a Alemanha Nazi—isto pode incluir violência.

Para tornar isto claro: sim, os bófias também são pessoas, e merecem o mesmo respeito que todos os outros seres vivos. O ponto não é que eles merecem sofrer, ou que temos de trazer-los à justiça—isso é a moralidade Cristã outra vez, negociando com a moeda da superstição e do ressentimento. O ponto é que, em termos puramente pragmáticos, objetivando que outros não tenham que sofrer, poderá ser necessário interromper, através de meios de confronto e de militância, as injustiças perpetuadas pelos agentes policiais. Pode ser empoderador para aqueles que gastaram as suas vidas sob a bota da opressão finalmente contemplarem uma pontuação contra os seus opressores; no entanto, a real luta de liberação não se foca em exigir vingança, mas em solucionar problemas para que todas tenhamos vidas melhores. Portanto, mesmo que às vezes seja necessário meter a polícia em chamas, isto não deve ser feito a partir de um espírito de vingador justiceiro, mas de uma reflexão cuidadosa e de compaixão—se não pelos polícias eles mesmos, então por todos aqueles e aquelas que de outra forma sofreriam nas suas mãos.

Pode-se argumentar que encorajar as pessoas a lutar contra a polícia funciona mais para divulgar a desaprovação da mesma do que para causar assaltos reais. Pode-se até mesmo argumentar que, desse modo, é um serviço não só para aqueles que sofrem opressão policial, mas também para as famílias dos policias e até para os próprios policias—pois não só os agentes da polícia têm uma taxa desproporcionalmente alta de violência doméstica e abuso infantil, como também são mortos, cometem suicídio, e tornam-se viciados com uma frequência desproporcionada. Qualquer coisa que desmoralize os agentes da polícia e deslegitime a sua autoridade, encorajando-os assim a demitirem-se dos seus postos, é do seu melhor interesse, bem como do interesse dos seus entes queridos e da sociedade em geral.

 


[1] Algumas pessoas ficam emocionadas quando os Zapatistas, ou outros num espaço, tempo, ou cultura distante, confrontam e derrotam os seus opressores, e alegremente usam as fotografias de tais lutas para ilustrar as suas publicações, mas opõem-se a fazer qualquer coisa do género aqui no coração da besta, onde os poderes que destruiriam os Zapatistas e outros, estão mais profundamente enraizados.

[2] Da mesma forma que há o tipo de pessoa que prefere lutar fisicamente contra os inimigos externos que reconhecer as suas próprias consequências, também há o outro tipo que prefere o comparativamente projeto seguro de criticar os seus camaradas à atuação arriscada de confrontar os agentes armados que impõem a desigualdade social.

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