A Importância da Crítica no Desenvolvimento do Movimento Revolucionário – VII, VIII, IX

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VII.

Luigi Fabbri, no seu documento fundamental “influências Burguesas no Anarquismo” já em 1918 se queixava do problema da linguagem utilizada entre anarquistas para discutir, mas também para outros setores populares ou de esquerda. A sua queixa é particularmente relevante para tudo quanto aqui expus. Disse-nos Fabbri:

“O fim da propaganda e da polémica é convencer e persuadir. Ora bem: não se convence e não se persuade com violência na linguagem, com insultos e inventivas, mas com a cortesia e a educação da conduta”

E continua:

“(…)Mas a violência da linguagem na polémica e na propaganda, a violência verbal e escrita, que às vezes têm resultado dolorosamente em atos de violência material contra as pessoas, a violência que, sobre tudo, deploro, é a que se  emprega contra outros partidos progressistas, mais ou menos revolucionários, que isto pouco importa, que estão compostos de oprimidos e explorados como nós, de gente como nós tão animadas pelo desejo de mudar para um estado melhor a situação política e social presente. Aqueles partidos, que aspiram ao poder, quando a ele chegam, sem dúvida serão inimigos dos anarquistas, mas como isto ainda está longe de acontecer, como a sua intenção pode ser boa e muitos dos males que querem eliminar também queremos nós vê-los suprimidos, e como temos muitos inimigos comuns e em comum teremos, sem dúvida, que travar mais de uma batalha, é inútil, quando não prejudicial, tratá-los violentamente, dado que por agora o que nos divide é uma diferença de opinião, e tratar violentamente alguém porque não pensa ou trabalha como nós é uma prepotência, é um ato anti-social.

A propaganda e a polémica que fazemos entre os elementos dos demais partidos tende a persuadi-los da bondade das nossas razões, a atrai-los ao nosso ambiente. O que dissemos anteriormente em linhas gerais, quer dizer, que se persuade mal quem se trata mal, é mais aplicável em linha particular tratando-se de elementos assimiláveis: de trabalhadores, de jovens, de inteligências já despertas, de homens que já estão no caminho para a verdade. Os choques da violência, ao contrário, longe de os empurrar, detêm-nos neste caminho, por reacção. Alguns dos seus líderes podem agir de má-fé, mas digam-me: estamos seguros de que entre nós não haja também pessoas que atuem do mesmo modo? Devemos procurar atacá-los apanhando-os, como se diz geralmente, com a boca na botija, quando realmente se vê que agem de má-fé, e não incentivar o ataque a todo o partido. Certamente que muitas das suas doutrinas são erróneas, mas para demonstrar o seu erro não são necessários insultos; alguns dos seus métodos são nocivos à causa revolucionária, mas agindo nós de modo diferente e propagando com o exemplo e a demonstração fundamentada, ensinar-lhes-emos que os nossos métodos são melhores.

Todas as considerações deste trabalho me têm sido sugeridas pela constatação de um fenómeno que observo no nosso campo. Habituámo-nos tanto a enfatuar a voz sempre e em tudo, que temos vindo a perder gradualmente o valor das palavras e da sua relatividade. Os mesmos adjetivos depreciativos servem-nos de igual modo para atacar o padre, o monárquico, o republicano, o socialista e mesmo até o anarquista que não pensa como nós. E isso é um defeito primordial. Se alguma diferença se estabelece, maior é o benefício para os nossos piores inimigos. Pode dizer-se que os anarquistas e os socialistas não têm dito nunca tantas insolências aos sacerdotes e aos monárquicos como aos republicanos, e que os anarquistas nunca disseram tantas aos burgueses como chegam a dizer aos socialistas. Mais direi ainda: especialmente nos últimos tempos têm havido anarquistas que tratam outros anarquistas, que não pensam exactamente como eles, como jamais trataram aos clericais, exploradores e polícias juntos.

(…) Creio que seria melhor que procurássemos conhecer-nos, e, sobretudo, trabalhar sem perder nunca de vista o inimigo que temos em frente, o verdadeiro inimigo que anseia pelo momento de nossa debilidade para nos golpear. Porque nunca como no meio dos partidos em que a acção é a única razão de vida, se pode dizer com maior motivo que o ócio é o pior de todos os vícios e o primeiro destes é o da discórdia.”

Não se pode ser mais lapidar e certeiro do que neste julgamento. E novamente nos é demonstrado que, em 90 anos temos aprendido extraordinariamente pouco e que ainda nos falta muito por avançar na construção de um espaço saudável de debate, onde possamos aprender e avançar.

VIII.

Para nós, a crítica e o debate devem ser ferramentas para a construção, antes de tudo. Não nos interessa o debate para demonstrar “quem tem razão”, nem o debate para fins puramente “desportivos”, mas para tratar de buscar o caminho mais adequado para enfrentar os problemas com que o nosso movimento se depara e dentro de um espírito verdadeiramente construtivo. Certamente, tal forma de discussão deve ter por ponto de partida a prática, pois cremos que a discussão deve estar firmemente alancada na realidade para assim evitar as distorções próprias do desconhecimento prático ou do consequente idealismo. Também, só a discussão que se fundamenta nas experiências equivalentes pode gerar uma linguagem comum e produtiva. Pois se se critica uma organização pela sua maneira de fazer as coisas, definitivamente, devemos ser capazes de mostrar que há outra maneira de as fazer ou que pelo menos podemos sugerir alternativas. Contudo é necessário ter presente a todo o momento que raramente uma posição é eternamente certa e que, no final de contas, é a mesma prática, no desenrolar da realidade, que se dedica a destrinçar as posições mais acertadas das menos acertadas.

Então, outro ponto importante, é que se a crítica revolucionária não vem acompanhada de uma prática, então torna-se irrelevante. Pois que sentido tem uma crítica que se presume revolucionária se esta não está disposta a converter-se de verbo, na acção imprescindível para que haja um movimento revolucionário efectivo e não puro diletantismo intelectual? Ao contrário do politiqueiro, o revolucionário não fala a partir da audiência, da condição de espectador: o revolucionário deve falar sempre desde a acção e do esforço, por humilde que este possa parecer, para se converter na alternativa do presente. Eu tendo a ser muito mais céptico em relação aos hipercríticos e aos ultra-revolucionários que nunca vemos numa experiência concreta e que nunca sujaram as suas mãos. Isto é uma visão construtiva da crítica: uma que se forja no calor da construção concreta e não do mero espírito de destruir o esforço alheio.

A discussão deve, antes de mais, ser posta ao serviço da prática pois o dinamismo que se gera deve enriquecer as nossas experiências. E vice-versa, a prática logo entrega elementos novos para poder avançar na teoria, e como dizia Bereni, rumo a um anarquismo que saiba podar os ramos velhos, que saiba enxertar verdades novas nas suas verdades fundamentais e que saiba renovar-se, porque o imobilismo intelectual é o principal factor da nossa incapacidade para compreender adequadamente os fenómenos de um mundo que está em permanente transformação.

Mas a crítica não tem somente um papel de ajudar-nos a compreender melhor a nossa realidade e a desenvolver dos conceitos, preceitos e propostas mais alinhadas com as necessidades da nossa época. A discussão é também importante para avançarmos e desfazermo-nos de ideias erróneas, mal formuladas ou insuficientes. Como me dizia uma vez um companheiro: “com a nossa discussão não chegaste a convencer-me, mas pelo menos, serviu-me para descobrir as minhas próprias debilidades e reforçar então as minhas ideias”. Tal coisa não é cair num diálogo de surdos, na medida em que respondemos e escutamos os argumentos do outro. É uma ajuda crucial para avançar, pois dá solidez às ideias e aparecem então mais bem argumentadas, mais convincentes e mais acabadas. Ao mesmo tempo que nos livramos de ideias erróneas ou disparatadas.

Por último, a crítica e o debate são importantíssimos para construir pontes com outras correntes. Mediante o desenvolvimento da crítica podemos aproximar quem se tem visto atraído por outras correntes, podemos ganhar outras organizações para as nossas posições ou podemos aprender com elas e dar-nos conta de que, em algum aspecto determinado da nossa política, estivemos errados. Só onde se tem estabelecida esta ponte de discussão saudável se pode dar uma prática livre de sectarismo que, respeitando as diferenças, será capaz de unir esforços onde existe unidade de critérios.

IX.

Estas palavras não estão escritas com o espírito de denunciar ou rotular este ou aquele companheiro de sectário. Nem acredito que haja corrente livre de vícios que se tenha tornado hábito nos nossos círculos. Muitas vezes é tão culpado quem provoca como quem se deixa provocar e segue na corrente.  Todos sabemos que há “maçons num sentido intelectual” no movimento; todos sabemos que há devotos do “Santo Oficio”; eles têm-nos sem o menor cuidado. Não lhes passamos cartão, como se diz, porque sabemos que nada do que é fundamental para alcançar uma sociedade livre se encontra por esse caminho. O que preocupa é que eles consigam arrastar outros companheiros ou organizações que são valiosas para esse pântano. E pior ainda, que a cultura do debate tenha a sua referência comum trazida por este espírito miudinho. E ainda pior: que os camaradas que, desde distintas vertentes ou prespetivas, estejam presentes na luta e na construção não tenham aprendido ainda a gerar estas dinâmicas de troca saudável. Isto é o que preocupa verdadeiramente

A esquerda tradicional tem sido sectária, tem sido dogmática e tem frequentemente ignorado a realidade a seu favor. Não acho que os anarquistas, em geral, tenham sido muito melhores. É a hora de dar o exemplo. O que devemos apontar é a construir espaços de discussão e mudar os hábitos malsãos no nosso movimento, que não contribuem para o debate e que pelo contrário entropecem o desenvolvimento do necessário espírito crítico de que o movimento revolucionário tanto precisa para fazer frente às difíceis tarefas de regeneração social que temos por diante.


Autor: José Antonio Gutiérrez

Tradução: Liliana Silva, Apoio Mútuo

Fonte da imagem: Ação Revolucionária Estudantil

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